O outro lado

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   Uma vez salvei um besouro de ser devorado por formigas. À noite, na cama, imaginei que ele apareceria pousado na minha cabeceira para me dizer muito obrigado e como tudo seria melhor dali pra frente. Nunca, não pra mim. Do meu velho, apanhava por não tirar melhor nota, falar muito baixo, viver cheio de blusas porque sentia muito frio, ser tímido, ser bom demais, mole demais, por chorar era surra em dobro. Nada disso faz um homem, ele dizia. Quando morreu minha mãe, desgostosa desta vida, mas alegre com a outra que achava merecer, eu perdi a última linha de esperança.
    Vivendo só com o velho, que agora já tinha rugas a lhe cair por todos os lados, ainda assim a ordem deste mundo continuava a mesma. Ele dizia, cuspindo como um cão, que eu era um imprestável que ia trabalhar feito um burro servindo os outros e que ia morrer sem que ninguém no mundo sentisse falta de mim. Eu acreditava mesmo nisso,  não me achava inteligente e nem esperto. Faziam quatro anos que eu trabalhava de boy, tempo demais, todos os dias entrando e saindo de bancos, escritórios, consultórios, onde via todas aquelas pessoas bem arrumadas, bem sucedidas, bem feitas, bem comidas. E depois de comprar uma roupa nova, exigência do patrão, mesmo assim, ninguém me tratava bem. Na firma, quase não me notavam, trabalhava direito mas raro abria a boca, não entendia as brincadeiras, não sabia conversar. Se passasse depercebido seria até melhor, mas eu era um bicho sempre alerta, esperando o golpe. Eu não era nada.
    Entrava às oito, mas às quinze pra seis fechava o portão atrás de mim, pra só voltar perto das nove. Não suportava nem a respiração do velho, o ar rançoso de hálito podre. Ele não dizia palavra, mas deixava no meu quarto suas roupas, em cima das minhas, pra que eu lavasse. Cozinhando, eu lembrava da minha mãe. Ele mexia nas panelas, servia com o fogo ainda ligado, comia antes de mim e arrotava perversidade. A raiva me fazia ficar tonto e me imaginava pegando as chaves de uma linda casa com gramado, vidros grandes e tapete de boas vindas na entrada da porta. Mas era o inferno todo dia da minha vida, um atrás do outro.
    Preso ao dia, à noite, o tempo se repetia. Com o pé doendo, sentindo os buracos do chão pela sola inexistente do sapato, quase chegando a mais um prédio chique, o telefone tocou. Número que eu não conhecia, afinal, ninguém me ligava a não ser da firma. Desliguei, era engano, propaganda, mas aquele troço não parava de tocar. Alô, aqui é do hospital, veja, encontramos este telefone no bolso de um senhor…., ele foi atropelado e está aqui, o senhor o conhece?
    Desliguei na cara.  Ninguém merece sofrer, meu filho, ela disse. Ninguém.
    Correndo, entrei em um táxi e  cheguei no hospital. Entrei com passos lentos, devagar falei com a recepcionista que haviam me ligado sobre um velho, melhor, um senhor, mas que tinha achado muito estranho, afinal eu tinha me mudado havia tão pouco tempo para a cidade. Será um idoso que por coincidência e segurança carregava um número de telefone? Você sabe, ele pode ter se confundido e anotado errado. O senhor me acompanhe até a UTI, por favor.
    Lá estava o velho, um monte de carne esparramada em cima de uma cama com vermes brancos saindo de todos os buracos. Você conhece esse senhor? Conhece?
    Não, infelizmente não o conheço.
    Perguntei a ela, assim, por curiosidade, o estado do senhor. Ah, muito mal, traumatismo craniano, hemorragia interna, uma pena, acho que não vive até amanhã. E não tem família, documento? Não, só a roupa do corpo e o número de telefone que pelo jeito estava errado.
    Voltando pelo corredor, sorri, livre. Nunca me senti tão sozinho.

 

Mariana B Cavariani

 

Imagem: João Galera. Projeto “Antes que acabe”.

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