O Estudante

Kirill Serebrennikov é o diretor artístico do centro Gogol, uma das principais instituições de fomento às artes de vanguarda na Rússia, bem como professor de atuação e direção na Escola de Teatro de Moscou. Dadas as credenciais, seria de se esperar que os filmes de Serebrennikov fossem extremamente conceituais e, de fato, suas obras demonstram amplo domínio técnico da sétima arte. O Estudante (Uchenik, em russo), no entanto, surpreende pela acessibilidade.

Em uma cidade litorânea do sul da Rússia, Inga Yuzhina não reconhece mais o próprio filho. Embora seja visível o amor que sente por Venia, sua realidade de mãe solteira torna inevitável um certo grau de ausência. Assim, quando Venia aparece citando trechos da Bíblia e reclamando das meninas de biquíni, Inga não tem ideia do que fazer.  Tentando evitar escândalo, a escola acata algumas das demandas do garoto, mas, longe de apaziguá-lo, a atitude só o encoraja. Elena, a única professora a opô-lo acabará tornando-se alvo de seu messianismo.

Que fique claro: O Estudante não almeja o realismo. O pacto ficcional é bem construído e se mantêm durante toda a narrativa, as cenas são críveis e fazem sentido, mas Serebrennikov está mais interessado nos personagens como arquétipos do que como indivíduos. Assim, já no início somos apresentados a este personagem louco, irredutível e muito persuasivo, que, apenas citando a Bíblia (os versículos são listados na tela), é capaz de defender absurdos, justificar injustiças e incitar violência. Se há aqui uma crítica óbvia ao fanatismo religioso, a mensagem mais contundente é contra a complacência. Ao invés de fazer frente ao garoto, a reação da escola é a de “varrer para debaixo do tapete”, negociar, tentar argumentar contra algo ilógico – e portanto imune à argumentação. A forma como Venia toma a escola de assalto é, num microcosmo, uma demonstração de como ideologias messiânicas com alguns defensores fanáticos são capazes de subjugar uma população. Afinal, nas relações humanas fatos são irrelevantes: importam apenas as percepções.

Por Henrique Fanini Leite

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