O Estereótipo da Fome

Hoje publicamos esta crônica, gentilmente enviada por Mylle Silva. Escritora desde que se conhece por gente, vive um conflito eterno com as histórias e ideias que insistem em habitar sua mente. Publicou o livro de contos A Sala de Banho (2014), e as HQs A Samurai (2015), A Samurai: Yorimichi (2016) e A Samurai: Primeira Batalha. Ministra aulas de Escrita Criativa pela Fundação Cultural de Curitiba. Aqueles interessados em dicas, materiais de estudo e informações sobre o processo de escrita, podem acessar o Oficina de Escrita, onde a autora disponibiliza uma série de recursos.


Minha mãe bem que tentou, em vão, me ensinar a cozinhar. No tempo em que saúde ou consciência não a impediam de aventurar-se pelos sabores, ela me mostrou os melhores. O problema sempre foi a motivação: toda mulher precisa saber cozinhar. É a programação de fábrica, assim como limpar, cuidar, zelar dos outros, ser bonita, compreensiva e boa de cama. Claro que, com sete ou oito anos, eu não enxergava o pacote completo, mas já tinha uma boa noção dele – e de como precisar ser essa mulher me incomodava.

Mesmo diante do amor incondicional que sentia por minha mãe – e ainda sinto –, eu não queria ser como ela. Se para ser mulher eu precisava ser uma dona de casa e saber cozinhar, então eu negaria. Embarquei, assim, no estigma da mulher que não sabe cozinhar.

O horror das avós, sogras, tias e outras mães xeretas. A mulher que não sabe fritar um ovo, fazer um miojo, será que consegue por queijo dentro do pão? É a mãe dela que prepara tudo, além de não saber cozinhar, é mimada!

Aos meus olhos, todos os pratos continham o mistério de existir, fosse um sanduiche de fast food, fosse uma iguaria japonesa. Se parte do tempero do alimento é a fome, a outra parte é a ignorância. Comer um prato sem saber como ele foi preparado é o ultrapassar da consciência. Derrete na saliva, o estômago agradece.

Desregrada a vida, a fome não tem hora para chegar. Ao alcance de uma voz mal-humorada e alguma espera, o alimento vinha. Madrugada adentro, avaliado e devorado. Por vezes, ainda, cavado do fundo das geleiras particulares, recondicionado no calor das ondas e comido, sem muito discernimento para não esfriar a vontade.

Apesar do alto preço pago – no sentido literal da expressão – por um prato de baixa qualidade, não havia frustração. Era o sinônimo da liberdade, do não cair no estereótipo do gênero, da escolha de tudo que se queria comer e comia. Era ser pós-pós-pós-moderna, uma mulher do meu tempo, sem horários de almoço, janta, café da manhã, frutas e pão na mesa, sem família margarina reunida, comida na hora que a fome vinha.

Acho que vou ali fazer um lanchinho e já volto.

Pronto.

A vida seguiria seu curso não fosse um detalhe: eu quis cozinhar. Como um cão que corre atrás do próprio rabo, minha mente me pregara uma peça. Aos poucos, a liberdade de não saber cozinhar passou a me limitar. Depois de alguma resistência, admiti que a fome não escolhe gênero ou estereótipo – ela apenas existe.

O mistério do alimento passou a operar em outro nível. Panelas, água fervente, temperos, óleos, massas, molhos, carnes, legumes, cereais, verduras – tudo vinha separado! Como juntá-los se minha ficha culinária se resumia a trinta anos de uma extensa passagem por restaurantes por quilo, fast foods e refeições maternas?

Morava em mim, é claro, a menina que prestou atenção nas primeiras lições culinárias do ser-mulher. Pedi ajuda a ela, que veio do seu jeito, meio ressabiada, com medo do fogo, do borbulhar do óleo, colocando sal demais e se negando a colocar cebola porque não gostava. Ela preferia comida sem tempero.

Tivemos alguns desentendimentos, é verdade. Acariciar a carne morta, branca e fria do frango com uma faca pela primeira vez é como romper o lacre da inocência sobre o que nos dá prazer e alimenta. O rachar da casca na beira da pia, o choro bandido no cortar das camadas, o desmatar da floresta em flor, o espumar do líquido causado pela química em pó. Levo comigo as sensações do transformar – mas nenhuma me marcou mais do que a primeira vez que cortei um tomate.

Rasgada a pele, solícito é o suco que se espalha. Atravessei o mistério não do que há no tomate – isso eu sempre soube –, mas do amor em sua primeira instância. Amor conjugado, que se dá e quer receber, é como a pele vermelha que se abre no mínimo esforço e revela a semente. Doce fruto multimeios, semeia a fome e a sacies.

Hoje, no avesso da condição de esfomeada, sigo na alquimia dos sabores. A menina que se negava em ser mulher ainda briga por seu lugar à mesa, esperneia, flerta com um congelado. Mas não é contra o ser-mulher que ela luta – é contra o instinto que tempera o prazer de se saber capaz de saciar a própria fome.

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