O Beijo

Foi em uma roda de verdade ou desafio que se beijaram a primeira vez. Marcelo fechou os olhos no momento do beijo, na hora não pensou, mas depois decidiu que da próxima vez os deixaria abertos, para ver como era melhor. Na televisão as pessoas fechavam os olhos, a não ser que a mocinha não estivesse gostando ou houvesse problema com os dois, quando daí faziam uma cara engraçada, com os olhos bem arregalados. Não sabia o nome da garota, depois ia encontrar no facebook, quando a mãe devolvesse o cabo da tomada do computador.

Marcelo jogava muito vídeo game, LoL, principalmente. A mãe que chamava LoL de vídeo game, porque ela era uma velha retrógrada. Que nem o Paulo tinha dito da Tia Carmen, que também chamava LoL de vídeo game. Na verdade LoL é um e-sport. Um zilhão de pessoas assistiram o último campeonato mundial de LoL. O prêmio foi uma fortuna, com uma taça de ouro maior que a da copa do mundo. O Guilherme tinha dito que LoL seria incluído nas próximas olimpíadas, o pai dele leu no jornal. Marcelo era o Marksman do time – quer dizer, quem sabe agora já não fosse mais (obrigado, mãe), porque Ser o Marksman é como se fosse ser o Messi, só que com espadas e poderes mágicos no lugar da bola e das chuteiras. Marcelo não jogava fazia quatro dias inteiros.

 Mas tudo bem, ele foi na roda de dança do Oscar Niemeyer, junto com o Paulo, e acabou que ele ganhou um beijo – o primeiro beijo –  de uma garota linda. O Paulo ia bastante no Niemeyer. Na verdade Paulo não era um e-esportista de ponta, por isso jogava de Support, e mesmo de Support ele não era muito bom, mas Marcelo não reclamava porque o Paulo era gente fina. Eles eram amigos desde bebê, só que agora o Paulo era cool. Ele tinha um cabelo diferente, já tinha ficado com várias garotas, uma vez ele tinha bebido cerveja em uma festa. Marcelo gostava dele porque apesar de tudo isso continuavam sendo amigos – dele, que era gordinho e tímido, que nunca tinha beijado ninguém… até agora. Agora, então, Marcelo devia a vida ao Paulo, até deixava ele jogar de Marksman, se ele pedisse (e não fosse um jogo oficial).

Paulo também não conhecia a menina, mas sabia que ela era amiga do Jorge e do Lucas. A mãe dizia deles: barra pesada, mas Paulo achava eles maneiros. No ônibus verde para a casa do Paulo (a mãe achava que era Uber), Marcelo contou da sensação úmida dos lábios e como pensou que ia ter uma ereção (Paulo riu). Paulo contou que estava ficando com a Gabi e Marcelo agora entendia o que era ficar com alguém, mas tentou não sorrir como se fosse a primeira vez que aquilo acontecia. Paulo disse que naquela tarde Marcelo tinha virado um homem de verdade. Depois eles ficaram em silêncio enquanto Marcelo percebia como era olhar-pela-janela-feito-um-homem-de-verdade, e depois como era andar-pela-calçada-feito-um-homem-de-verdade. Na casa de Paulo, Marcelo chamou Tia Carmem só de Carmem e o Tio Nilson de Seu Nilson, feito-um-homem-de-verdade, e então soube que estava apaixonado.

A prova: nenhuma vontade de jogar LoL. O plano era inventar um trabalho para dormir na casa do Paulo, e então usar o computador do irmão do Paulo para jogar de dois. A mãe tinha até ligado para falar com Carmem e Seu Nilson. Mas chegando ao quarto, Marcelo despencou na cama e deixou a lembrança em auto-replay. O beijo foi ficando mais longo, depois eles inclusive trocaram algumas palavras. Dois dias no futuro eles se encontraram por acaso em um campo de trigo, e brincaram de correr e riram e depois ficaram sérios e se beijaram embaixo de uma árvore no por do sol. Um mês no futuro ela declarava seu amor ali mesmo, no Oscar Niemeyer, e toda a roda de verdade ou desafio olhava impressionada, porque o desafio dela tinha sido ser superhonesta com uma pessoa. Troçentos anos no futuro eles casaram e depois tiveram filhinhos fofos e lá no fim eles morreram juntos, ela nos braços dele e depois ele também, porque não dava para viver sem ela.

Podiam ir na casa do Lucas, já que ele não estava animado para jogar. Quem sabe a menina estivesse por lá.

Não estava. Estavam alguns outros meninos, apenas. Bem que a mãe falou: Barra Pesada. Tomavam cerveja, fumavam cigarros e narguilé. Marcelo teria que lavar o cabelo duas vezes para tirar o cheiro. Tomou o refrigerante e cuspiu: adulterado. Não tinha água. Não tinha suco. Pegou uma cerveja igual o Paulo, mas os goles eram só de mentirinha. A mãe ia matá-lo se descobrisse onde estava. A mãe sempre acabava descobrindo. A mãe com certeza ia matá-lo. Relaxa, disse Paulo. Vamos descobrir mais sobre tua amada. Sentaram no lado de fora, onde o Jorge desenhava espirais de fumaça com o cigarro.

Sim, ele conhecia a menina. Vanessa. Superlinda, sim. Marcelo a tinha beijado? Mandou bem. Ela era da hora. Lucas tinha ficado com ela na festa da Luiza, ela não era menina de ficar com qualquer um, não sabia beijar de língua muito bem, ainda. Também não deixava a coisa ir muito longe, embora o José tenha dito que agarrou a perna dela uma vez, quando ficaram na festa do João. Ele também é falastrão, então não dava para saber. Mas beijar é um começo.

Marcelo tomou a cerveja.

Na próxima semana, Marcelo ainda sem computador. Tudo igual: Paulo convidou para a roda do Niemeyer, a menina estaria por lá. Sim, Marcelo tinha que ir! Pensara nisso a semana toda. Mas não, dessa vez Marcelo não iria – nem quis responder. Dessa vez ele iria ficar em casa, sozinho. Dessa vez despencaria na cama e, os olhos fechados, nada mais poderia ofender aquele mundo, o mundo em que Vanessa o amava.

Por Henrique Fanini Leite

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