O Beijo

Os assentos do metro estão dispostos em nichos nos quais duas pessoas viajam de frente para outras duas. Eu, para evitar qualquer náusea, sempre escolho nesse quarteto quaisquer das duas poltronas no sentido pra onde vai o trem.

À minha esquerda e mais à frente vejo, sentados no contrafluxo, um casal adolescente. São bonitos, parecem ter vinte e poucos anos. Mas por alguma razão sei que estão entre 16 e 18. Penso em como é que distinguimos a idade das pessoas. Há quem perto dos trinta não tenha ainda nenhuma linha de expressão, um corpo firme, e vista-se com roupas de gente muito jovem. Então o que exatamente nos dá, mais ou menos, alguma certeza quanto ao fim da máxima juventude, de já ter alguém ultrapassado aquele começo de vida adulta?

Há nas maçãs do rosto de ambos um volume e um rosado que só as crianças e os adolescentes conservam, será vinda daí a minha aposta? O gesto meticuloso de pessoas que procuram sempre sentar do mesmo lado de um trem talvez seja coisa que também ajude a encorajar palpites? Um rosto e sua idade entendidos pela soma de tudo que ao redor deles orbita?

Orbitamos todos em volta do casalzinho que consegue viajar de costas & com os olhos fechados. Na frente deles, um assento vazio e outro ocupado por uma senhora que está vidrada em seu livro. Mas ela não parece de fato ler; pula e volta páginas, os olhos fogem para os lados, para o chão, para o teto. Fogem para os meus e, como os meus, querem olhar e sorrir, à procura de subterfúgios.

É que o casal adolescente, ela com uma das pernas em cima das pernas dele, está se beijando de língua. Não aqueles beijos de língua de quem se atraca, se morde, se lambe e gargalha com a cabeça para trás, com malícia. São beijos de língua levados a sério, solenes, entremeados de silêncios e cabeças baixas, daqueles em que o expectador vê rosto colado com rosto; duas bocas de peixe e algas e ondas a rabear pelo meio. Concentração e reverência que só é capaz de praticar quem ainda não calejou a língua dentro de outras bocas?

Mas esse não é dos primeiros beijos de um e de outro, nem deles juntos, suponho. Porque não há fuga ou hesitação. Na urgência que faz se beijarem assim em público e no vagar que faz com que valorizem estar um no outro, são contraditórios mas não são de todo iniciantes, apenas virgens. Um beijo entre virgens, é nisso que aposto. E na mesma medida em que tiro minhas conclusões, a punição: ora, pensar se o pai e a mãe ainda transam, se os vizinhos de oitenta anos ainda transam, com quem transa o modelo do anúncio luminoso da estação. Todos pensamentos tão tipicamente adolescentes, afinal.

Mas parece que prefiro essa perigosa espécie de retorno – essa forma possível de estar sentada em um contrafluxo – do que deixar vir pensamentos como: casais da minha idade podem passar dias um ao lado do outro, na cama!, e nada acontecer. E esses dois estão a sós dentro de um vagão cheio e se beijam assim. E então um senso de oportunidade perdida, ou pior: um senso de que, de minha parte, de nossa parte, já não há tanto assim a perder.

Todos no vagão, adultos cientes de suas casas, suas crias, suas rotinas, vão sem quase nada a perder testemunhando o casal adolescente que aposta ter tudo a ganhar. Poderiam todos concluir até com certo ar de superioridade: ó, lá vai o casalzinho mela cueca. E cada um voltar-se ao próprio telefone ou aos ensaios mentais sobre o que responder ao chefe, aos parentes, aos amigos, ao convite indesejado para ir de férias à praia em alta estação.

Mas sob risco de perdermos a descida na próxima estação, todos nós, que já não ruborizamos nem com a mais ousada posição de kamasutra, de repente nos vemos fixados naqueles dois jovens e constrangidos com as calças largas do rapaz e as mangas do moletom amarrado na cintura a disfarçar provável volume. A moça ajeita o corpo umas tantas vezes no assento; sabermos que a sutil fricção da costura grossa do jeans ajuda a aliviá-la faz senhoras  suspirarem de impaciência e homens balançarem a cabeça em reprovação.

A verdade é que já ninguém suporta a presença dos adolescentes. Poderíamos nos excitar se víssemos os vizinhos do prédio em frente contra um móvel. Um carro com os vidros embaçados balançando ritmado até nos despertaria qualquer coisa. Sexo em ambiente de trabalho, ménage à trois, troca de casais: senão tesão, pelo menos adrenalina. A verdade é que nem precisamos de qualquer coisa que pudesse nos excitar: bastava não sermos obrigados a ouvir os barulhos de um beijo lento, demorado.

Não podermos fazer espelho com o casal de adolescentes é triste, porque denuncia a nossa desilusão. Mas é ao mesmo tempo bonito, porque sinaliza que, seja como for, pudemos avançar qualquer coisa sobre o próprio corpo e sobre o corpo do outro. Seguimos teimosos, ainda, em reiterar as tentativas de realizarmos promessas impossíveis; aquelas de quando não sabíamos que o erótico fica para sempre na língua – a das palavras, quanto mais avance a viagem. Somos um corpo e sua idade, entendidos pela soma de tudo que ao redor deles orbita. No sexo entre adultos é sempre impossível evitar alguma náusea; não se sabe nunca para onde vai o trem. Descobrimos que não se pode fazer um, esse um total que o beijo testemunhado insiste em esperançar. E perdemos um ao outro sempre, ainda que nunca para sempre.

 Como esse casal adolescente que se despede sôfrego porque ela tem de descer antes, também seguimos otimistas e felizes junto aos nossos amores e amantes: é certo que amanhã ou depois nos encontraremos de novo, quem sabe para o que mais?

 

Andressa Barichello nasceu em São Paulo. É mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa e co-fundadora do projeto de Coinspiração Cultural Fotoverbe-se.com no qual realiza vivências com artistas. É autora do livro “Crônicas do Cotidiano e outras mais” vencedor do prêmio Alejandro Cabassa pela União Brasileira dos Escritores do Rio de Janeiro, publicado em 2014 pela Scortecci Editora.

Arte: Nanna Ajzental

1 Comentário

  1. Regina Ruth Rincon Caires - Caires fala: Responder

    Sensacional! Parabéns!!! <3

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