O Abutre

O Abutre

Embora o título “O Abutre” pareça mais adequado a algum filme trash de horror, uma tradução literal do título original, Nightcrawler (uma espécie de minhoca), seria ainda pior. O termo, é claro, não tem apenas esse sentido – nos Estados Unidos, Nightcrawler é uma gíria para pessoas que tem estilo de vida predominantemente noturno, algo que resume bem a premissa da obra.

Lou Bloom é um ladrão de sucatas determinado a mudar de vida. Dirigindo de madrugada pelas ruas de Los Angeles, ele se depara com um acidente automotivo. Em questão de minutos, aparecem equipes de cinegrafistas para documentar a tragédia e vender as imagens para os noticiários da TV. Vendo ali uma oportunidade, Bloom compra equipamento e começa a documentar acidentes e crimes violentos. Com o sucesso da empreitada, sua ambição acaba por torná-lo tão perigoso quando os criminosos que retrata.

A obra como um todo é de grande qualidade, mas dois fatores são realmente notáveis em “O Abutre”: a originalidade do tema abordado e a atuação de Jake Gyllenhaal como Lou Bloom. O personagem lembra um psicopata, com inocência quase cômica mesclada a frieza e maldade desumanas. Gyllenhaal não só consegue transmitir estas  características aparentemente contraditórias, como incorporá-las de maneira crível na persona de Lou Bloom. É difícil caracterizar o gênero do filme; há elementos de comédia, de drama, policiais e de ação. O enredo é bastante crítico ao jornalismo sensacionalista e de ética duvidosa, mas estende a discussão também ao papel da sociedade: se existe esse tipo de notícia, é porque há quem deseje assisti-la. Nisso, não há demagogia: as ações reprováveis de cada um dos personagens são consequência de demandas igualmente reprováveis de outros agentes, seja o público ou o produtor de TV. A exceção é Bloom, que parece não ter nem sombra de um compasso moral. Através de suas ações, percebemos que, no mundo da mídia, os mocinhos  não existem fora da telinha.

Por Henrique Fanini Leite

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