O Abrigo

take shelter

A parceria entre o ator Michael Shannon e o diretor Jeff Nichols já rendeu alguns bons filmes, mas é em O Abrigo que o trabalho de ambos se sobressai. O enredo é dominado por um personagem, Curtis LaForche, um operário numa pequena cidade americana que começa a ter visões apocalípticas. As visões incluem grandes revoadas de pássaros negros despencando do céu, tempestades de um líquido parecido com óleo e pessoas de seu convívio tentando matá-lo. Ainda que inseguro a respeito da própria sanidade, Curtis toma algumas medidas motivadas pelas visões, como reforçar o abrigo para tempestades de sua casa e afastar-se daqueles que o atacam nas visões. De início, o operário tenta esconder sua condição da esposa, Samantha, e filha, Hannah, mas seu comportamento errático começa a afetar todos a sua volta.

Pode-se dizer que o grande mérito de O Abrigo é o uso da técnica do narrador não confiável. Nesse caso, é claro, não há um narrador no sentido estrito da palavra, mas percebemos a realidade da maneira como Curtis a percebe; para nós, suas atitudes não parecem de todo injustificadas. Graças a isso, é possível sentir grande empatia pelo personagem. Shannon faz um excelente trabalho em demonstrar os sentimentos angustiantes fomentados pelas visões e, sobretudo, pelos vários níveis de incerteza que suscitam.  Até o final do filme, não há nenhuma pista sobre a veracidade das previsões, mas é natural assumir que são sintoma de um distúrbio psicológico. Ele próprio parece acreditar nisso, mas é incapaz de evitar que o distúrbio afete sua vida. Sob esse ponto de vista, O Abrigo pode ser interpretado como um estudo sobre doenças mentais, como esquizofrenia. Que fique claro: o filme é propositalmente ambíguo – diversas outras interpretações são possíveis. O final não traz muitas certezas, ou melhor, traz várias certezas possíveis: espere longas discussões antes de dormir.

Por Henrique Fanini Leite

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