Nós

Há uma superstição em Hollywood de que, quando a primeira obra de um diretor é muito bem-sucedida, a segunda será um fracasso. “Nós”, segundo filme de Jordan Peele, passa longe, muito longe disso: “Nós” atingiu a segunda maior bilheteria de estreia da história do cinema americano, atrás apenas de Avatar, uma façanha para uma produção de “apenas” vinte milhões de dólares.

O enredo gira em torno de Adelaide e sua família. Quando criança, Adelaide se perdeu em um parque de diversões em Santa Cruz. Andando sem rumo, a menina acaba entrando em uma casa de espelhos, onde tem um encontro com seu doppelgänger. Muitos anos depois, casada e com dois filhos, Adelaide volta a região. Não só o parque ainda está lá, como também as memórias e as sombras.

“Nós” repete a aclamada combinação de horror e comédia vista em Corra!, dessa vez ambientada no litoral da Califórnia. A trilha sonora é um ponto alto, combinando corais infantis, sonoridades africanas e hip-hop. Efeitos sonoros bem colocados salientam as intenções da narrativa. O enredo consegue se sustentar, mas é claramente secundário aos sustos e piadas que propicia. Dado o subtexto político de seu predecessor, críticos têm se esforçado para encontrar também em Nós uma mensagem nesses moldes. Até agora, não há uma interpretação consensual, com teses variando do esperado conflito racial/opressão de classe até a injusta acusação de que “Peele busca tantas ideias ao mesmo tempo que acaba não desenvolvendo nenhuma”. Que o ato da criação nem sempre se dobra a uma agenda política, ou que talvez Jordan Peele não estivesse interessado em repetir a fórmula de Corra! ipsis litteris são hipóteses mais prováveis, mas que crítico já fez fama dizendo que as vezes um filme é apenas o que se vê na tela? Que seja: vemos um filme bem feito e divertido. Isso basta.

Por Henrique Fanini Leite

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