Nós também, Miss Ives.

 

        Confesso que nunca me interessei tanto em assistir a Penny Dreadful. O nome da série não me parecia muito convidativo e as propagandas não chamavam muita atenção. Outra confissão, assisti de trás para frente, porque em um dia daqueles de canais abertos para todo mundo, acabei vendo os últimos episódios, que aliás, já tinham até passado.  Neste momento, um material de qualidade se diferencia, pois ver o final me instigou a assistir todo o restante.

        Voltemos ao começo. Penny Dreadfulls são contos curtos, fantásticos ou de terror que eram vendidos por 1 penny, o equivalente a 1 centavo, na Inglaterra no final do século XIX.  A série não foge à sua inspiração. Na Era Vitoriana, Vanessa Ives crê ser perseguida pelo Mal, ou qualquer nome que se prefira. Nesta saga, surgem personagens notórios como Doutor Victor Frankenstein e suas criações, Dorian Gray, lobisomens, bruxas e vampiros. Sobra espaço até para Doutor Hyde e uma psicanalista, teoria que nasceu também nesse período.

        Esta variedade de famosas figuras, juntas, pode ser um dos motivos de certa prevenção a assistir a série, visto filmes recém lançados com estes mesmos personagens de qualidade duvidosa e dramas no mínimo baratos. É justo nesse ponto que Penny Dreadful ganha destaque.

        Cada personagem tem sua história desenvolvida com base no que já se conhece, mas aprofundada muitas vezes, o que cria boas tramas paralelas, sem no entanto, atrapalhar ou competir com a história principal, uma vez que também se entrelaçam. Além disso, possuem em comum um fio condutor – o questionamento da natureza humana, o que nossos sentimentos podem nos tornar e onde pode nos levar.  São trazidos à baila várias questões – amor, honra, lealdade, aspiração, liberdade, mas em se tratando de Penny Dreadful, a corrupção de todos estes – obsessão, ambição, egoísmo, vaidade, loucura. Tudo isso sem apelar para dramaticidade exagerada.

       Esta luta interna concentra-se e amplifica-se ainda mais em Miss Vanessa Ives, grande interpretação de Eva Green. A personificação de figuras maléficas fica até em segundo plano, pois o que ela descobre é o mal em si mesma, algo do qual não consegue fugir, por mais que tente. Um monstro tão humano.

       A obra ainda encontra tempo para abordar a sociedade patriarcal e conservadora da época, principalmente na figura de Bronna/Lily, que promove uma luta pela liberdade das mulheres e da violência que sofriam.

      Enxuta, a série tem 3 temporadas com 8 a 10 episódios em cada, o que é uma raridade, visto que o alongamento de obras hoje obedece mais ao lucro que obtêm do que uma boa história para contar. Mas parece que o roteirista, John Logan, já tinha o final em sua cabeça e a partir daí desenvolveu o restante, dando coesão e coerência a toda a trama. Afinal, apesar desta história ter terminado, o questionamento que traz nunca morre.

 

Mariana B Cavariani

Gostou? Deixe seu comentário!