No Elevador

Se ela estivesse com pressa, certamente ficaria irritada com os inúmeros desvios de trânsito no trajeto que percorreu, pois a cidade passava por obras e estava intransitável. Mas não era o caso, adiantara-se para o seu compromisso. Quando localizaram o prédio, ela calmamente abriu a bolsa, puxou a carteira, retirou o dinheiro para pagar a corrida e aguardou ainda alguns minutos no táxi, a fim de ouvir os acordes finais da música que tocava no rádio. O dia estava muito claro, o céu limpíssimo, e foi um contraste para os olhos quando saiu do interior sombreado do carro e desceu na calçada.

O prédio era antigo com uma fachada cinza escurecida pelo tempo. Entrou, e não encontrando o porteiro conferiu as placas no alto da parede: sala 1503 – Marília Nogueira. Dirigiu-se ao elevador e apertou o botão. Só então percebeu o ambiente ao redor. A porta do elevador era pantográfica, de metal dourado, e ao lado havia uma larga escada em espiral com um corrimão de ferro delicadamente trabalhado. Do alto pendia um enorme lustre. Toda a parte superior das paredes era contornada por frisos que ela vasculhou demoradamente. Frisos cheios de ornamentos, volutas, com suas infindáveis linhas espirais levando sempre ao centro. Tudo muito antigo e muito bonito. Sentiu-se acolhida ali naquele ambiente.

O elevador chegou, e quando a ascensorista abriu a porta veio o choque: ela tinha uma chupeta na boca. Impossível conter o espanto do rosto, não dava pra despistar, apenas conseguiu reter no pensamento a interrogação: o que é isto?, por que você usa uma chupeta?!  Atônita, por alguns segundos permaneceu relutante em entrar, e por fim o fez sem desviar o olhar da boca da moça. A ascensorista, indiferente à sua reação, fechou a porta pantográfica. Mas ela mal deu conta de balbuciar: décimo quinto andar, por favor! A moça calmamente sentou em seu banquinho de madeira, apertou o botão correspondente, girou a manivela e continuou a folhear a revista que tinha nas mãos.

Estavam sozinhas e, de frente para a moça, hipnotizada pela chupeta, ela é que sentiu constrangimento. Falo ou não falo alguma coisa? Pergunto ou não? Quem sabe é alguma técnica de tratamento ortodôntico, tratamento fonoaudiológico? Quem sabe ela sente pressão ou dor de ouvido dentro do elevador? Ai, chupetas… deixei de usá-las cedo, pois me dava nos nervos esta língua invertida dentro da boca.

Sem ter para quem olhar, sem ter com quem dividir o estranhamento e não suportando o confronto direto, recuou para o fundo do elevador. Será assim todos os dias ou apenas hoje, porque não há movimento? Não sente vergonha? Percebeu então a cor rosa da chupeta combinando com o rosa do esmalte das unhas, decorado com moranguinhos vermelhos. O brinco em formato de joaninhas, a revista da Turma da Mônica. Moça jovem, cabelos apanhados em um rabo de cavalo, talvez tivesse uns 18 anos. Alguma questão não resolvida com a mãe?- foi o julgamento mais imediato. Eu, hem?, aprendi com minha mãe que “quem guarda silêncio está fora de perigo”. Melhor mesmo é ficar quieta, não me intrometer, nada perguntar, não provocar confusões.

Silêncios já são bem incômodos em um elevador, mas este pesou, pesou muito. Cravou o olhar à frente. Sua visão então se restringiu a uma parede e um vão de porta, uma parede e um vão de porta. E embora estivessem visivelmente subindo, seu corpo guardava a memória de estar parado lá embaixo, percorrendo as espirais do friso, ainda relutante em ascender. Sentiu enjoo ali dentro, aquele conflito entre os sentidos corporais, um mal-estar semelhante ao de quando o avião decola. A questão não resolvida seria com o pai?- o segundo julgamento. O seu pai, sempre de boca fechada, nunca falara com ela, e quando pequena não podia entender isto. A mãe constantemente se interpondo entre os dois – ele está cansado, não insista, deixe seu pai ler o jornal, seu pai almoça sozinho! E ela teimando, escrevendo nas bordas dos jornais: por favor, converse comigo papai! Um homem de porte altivo, mas silencioso; um silêncio de chumbo. Como sustentava aquele porte elegante?  Era como tivesse pendurado a si mesmo em um cabide, para assim levar a vida adiante. Ou como uma marionete suspensa pela cabeça por um fio invisível. Mas manipulada por quem?

O elevador era lento e como um projetor rodava aquele filme em slow-motion: uma parede e um vão de porta, uma parede e um vão de porta. O vão, como uma boca oca costurada por grades: o que pode e o que não pode ser dito? Lembrou-se dos índios shuar, que além de cortarem e reduzirem a cabeça de seus inimigos, costuravam seus lábios com uma fibra que não apodrecia jamais.

Uma parede e um vão de porta. Ah, por Deus!, que isto termine logo! Um vão… o vão…  a boca vazia, a boca oca, a boca sangrando… Quando o pai desapareceu – menina ainda – a mãe por fim contou: cortaram a língua de seu pai, vingança pela traição, ele falou o que não devia.

Saiu do elevador sem porte altivo algum, vomitando e em pranto compulsivo. Não quis ajuda da ascensorista. Sentou-se no chão e ali permaneceu até que colocasse para fora tudo o que poupara há tantos anos. Depois se recompôs, dentro do possível, e bateu na porta da analista.


Regina Lopes Maciel sobre si: Sou Mulher, mineira, tenho 59 anos, sou pequena (tanto quanto as histórias que escrevo), prezo a delicadeza e o lado positivo da vida. Escrevo há alguns anos e tenho dois livros digitais publicados: Pequenas Histórias e Uma Mulher Qualquer.

2 Comentários

  1. Muito Legal Regina, parabens!!!

  2. Rosângela Martins fala: Responder

    Gostei da sua forma de escrever. A história é curta, mas criativa. Parabéns!

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