Não Me Provoque

ouroboros

Este conto foi publicado no Livro dos Novos III, uma coletânea de contos organizada pela Travessa dos Editores com alguns dos nomes mais promissores da literatura paranaense, alguns dos quais já foram publicados aqui na EMA também.


Sentam-se numa sala de pé direito baixo. Apenas uma lâmpada sem lustre ilumina o ambiente. Há um par de cadeiras encostadas na parede oposta à porta e um sofá com o estofado saindo logo à direita de quem entra. No meio há uma mesa de madeira toda riscada com algumas latas de cerveja vazias.

“Bruxa, é? ” Desdenha o menino chamado Charles enquanto ajeita os óculos. Senta numa das cadeiras, as pernas juntas um tanto tímidas, a mão segurando uma lata de cerveja sobre a coxa.

“Que foi? ” Diz a menina no sofá, Cassandra, gorda, sombra preta nos olhos. “Tua ciência não consegue nem sonhar com as merdas que rolam nesse mundo. ”

“Faz um feitiço aí, então. ” Sorri.

“Trouxa… ser bruxa não tem nada a ver com isso. Quem tira coelho da cartola é embusteiro.”

“Então você é uma bruxa que não sabe nenhum feitiço? ”

Cassandra aponta o nariz enorme e achatado para o meio dos olhos de Charles: “Bruxas não fazem feitiços. ”

“Então vocês… ”

“…sabem das coisas. ” Intervém a menina.

“Das coisas…” Diz Charles, virando os olhos. Repete “Coisas… ” como se houvesse algo engraçado.

“Aliás, várias coisas, Charles. Você só não tá pronto pra entender.” Fala como se lamentasse.

“Acho que eu só escutei isso umas cinquenta vezes.” Um meio sorriso e então, gesticulando as aspas: “Todo mundo que acredita em alguma dessas merdas fala que quem não acredita ‘não tá pronto pra entender’. ”

“Mas é que não adianta. Mesmo que eu te desse mil provas você não ia acreditar, porque você não quer.”

“Tenta, ué. ” Dá de ombros.

Ela olha para baixo e fica em silêncio alguns segundos. Escuta-se longe um bêbado resmungando ameaças. “Melhor não. ”

“Pô, Cassandrinha…” Brinca o menino, “não foi você quem disse que a gente tinha que se conhecer melhor? Aliás, por que estamos só nós dois aqui? ”

“Quer mesmo saber, Charles? ” Espera um breve instante. “Me diz: você lembra onde estava antes daqui? ”

“Lembro. ”

“Onde, então? ”

Charles não expressa nenhuma reação.

“Viu só? Aliás, provavelmente você não lembra de nada antes disso aqui. ” Levanta as sobrancelhas, mas não espera a resposta. “E sabe por quê? Porque isso aqui é uma história que começou agora há pouco, quando a gente começou a conversar.”

“Porra, Cassandra…” Sacode a cabeça devagar. “Você tá falando de destino? Sério, jura, destino? Isso é quase tão lugar-comum quanto astrologia. Ou você acredita em astrologia também? ”

“Não, não tô falando de destino. Tem alguém escrevendo essa porra agora mesmo. Tipo, literalmente o cara tá escrevendo agora. O negócio é que é ele quem escreve, e não a gente. A gente não tem controle sobre nada. ”

Responde um ronco sarcástico. “Então, o que vai acontecer agora?”

“Eu não tenho como dizer, porque ele ainda não escreveu.”

Dessa vez o menino dá uma gargalhada. Mexe nos óculos de novo. “Porra, então pra que serve saber disso?”

“Serve pra você ficar tranquilo.” Ilustra o ponto colocando os pés no sofá sem tirar os sapatinhos.

Charles toma um gole da lata. Pigarreia antes de começar a frase. “Tá, mas e se o cara escrever a parada e daí resolver voltar pra editar alguma parte da história? E se ele, sei lá, deletar um parágrafo? ”

“Daí ele deleta e pronto.” Mostra as mãos espalmadas. “Se deletou, nunca aconteceu, então você não vai lembrar que lembrava de uma coisa que agora mudou. Ele deleta a própria memória, Charles.”

O menino faz por alguns instantes uma imitação perfeita de “O Pensador”, de Rodin. “Mas ele deleta tudo de uma vez? Quem sabe ele delete palavra por palavra. Daí a gente não ia sentir a memória desaparecer aos poucos?”

“E quem disse que você não sente? Meu, se isso rolou, não tem como você lembrar. O cara mexe na tua mente, moleque. Ele bota e tira o que quiser daí.”

“Olha tua pira, Cassandra… ” Ajeita-se na cadeira, sentando em cima das mãos. “Quantos você fumou hoje?”

“Charles, eu te juro: tem um cara escrevendo essa nossa conversa.”

“Isso não pode ser verdade, guria, pelo seguinte: se tem um cara escrevendo isso, então ele leva um tempo pra escrever, correto?”

“Correto.” Não consegue esconder um sorriso de deboche.

“Ah… ”

“Não, foi mal. Não corta a pira, Charles.”

Charles faz uma cara de “só faço isso por você” e continua. “Tá… Então demora um tempo pra ele escrever, pra ele editar, pra ele fazer qualquer coisa, certo? ” Encara a menina. “Mas o tempo não para nunca, e nem nossa memória. Cada segundo que passa é um segundo gravado na memória. Beleza até aí? ”

“Só fala, porra. ”

“Então se o tempo não para e a cada segundo que passa a gente cria uma memória desse segundo, então durante os segundos que o cara demora pra mudar nossa memória a gente faz a memória disso, então se o cara mudasse nossa memória a gente ia lembrar.”

Ela ri um pouco exagerado. “Moleque esperto você, Charlie, só que ele também apaga a memória desse tempo em que ele apagou.”

Os olhos do menino brilham. Faz uma pausa teatral e responde falando mais baixo, olhando para ela um pouco curvado. Cassandra senta-se direito e também se inclina, como se fosse ouvir um segredo. “Mas apagar a memória do tempo que ele passou para apagar a memória original também leva tempo. Ou seja, a gente ia lembrar dele apagando a memória de que a gente teve a memória apagada. ”

“Então nesse caso a gente ia lembrar que alguém apagou a memória de alguém apagando a nossa memória? ”

“Isso.” Senta reto, nariz erguido.

Novamente um esboço de deboche no rosto da menina. “Mas como seria essa memória, então?”

“Não fode, Cassandra… Sei lá como seria essa memória. Só sei que se tivesse um cara que escreve o que eu falo eu ia lembrar dele apagando a memória de ter a memória apagada e mesmo que ele fizesse isso infinitas vezes alguma coisa ainda ia sobrar.”

“Antes de vir para cá você visitou um amigo chamado Pedro Oribres, numa casa na Rua Antônio Escorsin, número setecentos e doze. Vocês são amigos de infância, mas hoje em dia não saem mais juntos. Você tem pena de abandonar uma amizade tão antiga, por isso ainda visita o cara de vez em quando.”

Ele retruca apenas com a boca entreaberta.

“Às vezes ele me dá umas dicas. ” Cassandra mexe os ombros. “Se você aceitasse, quem sabe ele também te ajudasse. ”

Charles franze as sobrancelhas. “Guria, eu não sei como você sabe disso, mas, porra, você não quer que eu acredite que tem um sádico filho da puta todo-poderoso que passa as noites de sexta brincando de faz de conta com as nossas vidas. Por que esse merda não vive a própria vida?”

Ela contrai os lábios e balança a cabeça. “Acho que você não devia ter falado isso. Ele é bem sensível. Pode ser que tenha ficado bravo com você.”

“Bravo o caralho!” Grita, de repente os olhos arregalados, o corpo rijo, os músculos do pescoço e dos braços visivelmente contraídos. “Ele vai me fazer admitir que eu não passo de uma criação bidimensional e estereotipada do chato arrogante; que eu não tenho nenhum significado além do meu papel nessa história; e que eu, não passando de apenas uma criatura do Todo-Poderoso Autor, não tenho direito de julgá-lo.” Súbito tapa a boca com as mãos. Com a outra, tenta tirar a que cobre a boca, mas não consegue. A carne do lábio fundiu-se com a da mão. Tenta pedir ajuda, mas Cassandra caiu num sono profundo. Como se tivesse vida própria, a mão começa a entrar dentro da boca e logo sente-a deslizando pela garganta magicamente dilatada. Os olhos vesgos observam o braço inteiro entrar. Tenta fechá-los, mas as pálpebras não obedecem. O segundo braço agora fundiu-se com o cotovelo do primeiro e também está entrando. Aos poucos suas costas se curvam e a boca encosta no umbigo, por onde seus órgãos começam a ser sugados. Os óculos caem no chão. Sente os intestinos raspando mornos na língua; um gosto pastoso e fétido misturado com o salgado do sangue. Não consegue deixar de imaginar uma cobra comendo o próprio rabo. Sente ânsia. Depois dos intestinos passam o pâncreas, os rins e o fígado, cada um com gosto e textura particulares. As costelas entram inteiras, uma a uma. Os olhos ainda arregalados, seu corpo murcha até sobrarem apenas cabeça, pele e roupas. Charles tenta respirar, mas há pouco sentiu o gosto amargo e esponjoso dos pulmões. Ainda assim sente falta de ar. Passam-se vários segundos antes de a pele encharcada de suor começar a ser absorvida lentamente. A sensação lembra a de comer ostras. Entram a virilha, a bunda, as pernas e os pés ainda com unhas. O menino vira um anel cada vez menor.

Quando Cassandra acorda, há no assento da cadeira uma cabeça de olhos arregalados com o próprio pescoço entrando na boca. A menina se levanta e agarra a cabeça com uma mão, examinando ambos os lados. Com a outra mão levanta os lábios do menino, tentando sem sucesso ver além da garganta. Percebe que as narinas ainda se mexem; os olhos se recusam a fechar.

Olha para cima. “Você podia ter pego mais leve, né? Ele não era tão chato assim…”

Tira da mochila um saco de pano branco, coloca a cabeça dentro, guarda o conjunto de volta e sai pela noite de primavera.

Por Henrique Fanini Leite

Gostou? Deixe seu comentário!