Muito Gelo e Dois Dedos D’água

“Há muito tempo eu não sentia tanta vontade de sair da sala durante uma projeção. Ao longo dos últimos anos, vi muitos filmes pavorosos, é verdade, mas sempre encontrava algo que me prendesse na poltrona – no mínimo, uma curiosidade mórbida para descobrir até a que ponto a incompetência dos realizadores chegaria. Em Muito Gelo e Dois Dedos D’Água, no entanto, a sensação que experimentei foi de excruciante sofrimento; de quase tortura.”

– Pablo Villaça (Cinema em Cena)

A frase acima resume bem a opinião predominante da crítica a respeito desse exemplo insólito de trash nacional. Ainda assim, o Google indica 92% de aprovação por parte do público. A obra, escrita pelo casal Fernanda Young e Alexandre Machado, dirigida por Daniel Filho, é de uma ironia diabólica, muito provavelmente acidental, melhor interpretada sob a ótica do camp.

Como tanto os roteiristas quanto o diretor participaram de diversas produções da Globo, a obra nos lembra as novelas e minisséries da emissora. (o G1, inclusive, foi o único site com uma avaliação positiva de “Muito Gelo…”, descrevendo-o como “besteirol do bom”). Tendo isso em mente, a graça do filme está justamente em sua péssima execução. É algo como Rede Globo gone wrong, Turma do Didi (efeitos sonoros e visuais, inclusive) misturado com Pulp Fiction. Tão ruim, mas tão ruim, que chega a ser bom. Aqui, é importante notar que assisti a esse filme na sessão corujão, por acidente, o que adicionou uma camada extra de sarcasmo aos diálogos novelescos, nudez gratuita, trama mal estruturada, tomadas deselegantes, etc. Parte da minha diversão foi tentar adivinhar se o diretor fez isso de propósito ou não. Estaria a Globo ironizando a si própria? Suspeito que minha opinião seria diferente se o tivesse assistido em outro contexto.

Por Henrique Fanini Leite

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