Miyó Vestrini

Morreu. Ou já se morreu ou se irá morrer. Ela foi apenas mais uma. Talvez não apenas. Afinal, ela era marcante. Nas fotos pixeladas em tons dégradé de preto e cinza, ela é tão marcante. Algo me chamou a atenção; talvez os óculos retrô que poucas avós tiveram coragem de usar nos tempos em que elas ainda eram elas (é discutível, mas hoje elas são parte do que um dia já foram?).

Marie-Jose Fauvelle Ripert, mais conhecida como Miyó Vestrini, nasceu e depois morreu. Morreu longe de onde nasceu. Viveu longe de onde nasceu. Marcou pessoas, adivinhem – longe de onde nasceu. Que, por sinal, foi na França, em uma cidadezinha chamada Nimes. Aparentemente, assim como todas as cidades francesas, ela possui aquele familiar charme francês. Charme esse, colorido pela primavera de 1938, que foi a estação que acolheu Vestrini aos nossos ares. Foi um lindo abril, tenho certeza. Quando ainda era uma pequena menina emigrou para a Venezuela com sua família, em 1947, dando início a uma “segunda infância” nos Andes venezuelanos. Morou em cidades como Trujillo, Maracaibo e, por fim, Caracas.

Desde cedo Miyó, se me permitem tamanha intimidade, se dedicou ao jornalismo cultural e, nos anos sessenta, participou de grupos como “Apocalipsis de Maracaibo” “El Techo de la Ballena”, “La República del Este”, entre outros. Foi laureada, duas vezes, com o “Premio de Periodismo”, em meia-sete e em setenta e nove.

Além disso, foi âncora de um programa de rádio chamado “Al pie de la letra”. Dirigiu a seção de arte do jornal “El Nacional” e da revista “Critiarte” e também trabalhou como roteirista para programas de televisão; destacou-se como uma ótima entrevistadora. Suas criações mostram um eterno diálogo, um tanto quanto perverso, entre as suas raízes francesas e o ambiente latino americano que a embriagava.

Sua obra percorre diversos temas. Com um caráter agreste e audacioso, tal era a vida que se vivia, representou a voz da mulher urbana, imersa nas possibilidades e limitações da modernidade venezuelana. O negrume de seus diálogos internos escapava na evidente tensão de seus poemas; a morte se apresenta, encantadora e subversiva, como uma possibilidade real e salvadora e, quem sabe, longamente esperada. Enriquez Hernández comentou: “Miyó é uma mulher suicida e isso tem a ver com a sua poesia, pois é muito deslocada, cheia daquele mundo de protesto, reclamação”.

Por entre as grades de sua personalidade, conseguimos absorver leves relances de quem foi Miyó. Silda Cordiolani traduz esses relances da seguinte maneira: “Linguagem direta, austera, remota, com intenção de qualquer metáfora: economia de palavras que muitas vezes podem dar ao texto uma grande dose de cinismo”.

Suicidou-se em 29 de novembro de 1991. Após ingerir uma grande quantidade de medicamentos, sofreu uma overdose que pôs fim a sua vida.

 

As Paredes da Morte na Primavera

Traduzido por Lucas Morgenstern

Eu não ensinarei meu filho a cultivar a terra
nem cheirar espigas de trigo
nem a cantar hinos.
Ele saberá que não existem córregos cristalinos
nem água limpa para beber
Seu mundo será um mundo de chuvas infernais
E planícies escuras

De gritos e gemidos
De secura nos olhos e garganta
De corpos torturados que não podem mais vê-lo ou ouví-lo
Ele saberá que não é bom escutar as vozes das pessoas
Que louvam a cor do céu

Eu o levarei a Hiroshima. Para Seveso. Para Dachau.
Sua pele vai se desfazer pouco a pouco no horror
e vai machucá-lo ouvir um pássaro cantando

o riso dos soldados
os pelotões de fuzilamento
as paredes da morte na primavera

Ele terá a memória que não tivemos
e ele vai acreditar na violência
daqueles que não acreditam em nada.
 

Análise

Este poema nos introduz a uma das vozes femininas mais fortes da literatura venezuelana. Para melhor compreendermos o seu conteúdo – e muito do que Miyó viveu – é preciso levar em conta o que se passavam nas manchetes dos jornais da época: ditaduras latino-americanas eclodindo, o aumento do silenciamento da mulher e, ao fim de tudo, a poesia como um subterfúgio para a resistência.

O pessimismo escorre pelas palavras do poema e não é para menos: vive-se uma verdade ilusória. Não se deve estimular a esperança por dias melhores. Prazeres simples como o cheiro de flores – ou espigas de trigo – já não fazem mais sentido. Transcender para quê – cantar as melodias de união e dos povos – se tudo, no fim, irá colidir com o contrastante “riso dos soldados”. É melhor se conformar com o esgotamento da conexão humana do que aprender a cultivar o futuro: sabe-se bem que esse futuro não vale a pena ser vivido. E essa, sim, é a verdade.

Verdade que se anuncia na primavera. Eis aí, caro leitor, o tão famoso cinismo de Vestrini. Quão belo não é esse cenário, de sofrimento em meio ao perfume; de morte em meio ao florescer; de sangue em meio ao mel? Sobretudo, quando o dia chega em que se chora ao ouvir um pássaro cantar, chora-se duplamente, pelo esvaimento da inocência.

Agora, graças às paredes da morte, que se dissimulam na primavera das flores para não mostrarem a sua verdadeira face, eu sei o que é a dor de se viver uma ditadura. É a perda da esperança; a perda da fraternidade; e, quem diria, talvez Hobbes estivesse certo. Afinal de contas, o medo do próximo é daqueles que não acreditam em nada, ou da massa de manobra?

Nesta análise, repeti a palavra “verdade” com fartura. Eis aí, caro leitor, o meu cinismo. Quando se trata de ditadura, temos como saber o que é verdade?

Por fim, termino com a seguinte reflexão:

Seria esse poema um presságio da morte venezuelana que estamos vivendo nos dias de hoje?

Por Lucas Morgenstern

6 Comentários

  1. Vera fala: Responder

    Gostei muito. Sensibilidade é para poucos. Parabens Lucas! Como precisamos de jovens jovens assim sensiveis.

  2. Algacyr fala: Responder

    Parabéns pela escolha e pela análise. A reflexão sobre a verdade está cada dia mais atual.

  3. Ione Dannus fala: Responder

    Parabéns Lucas! Simplesmente fantástico! Amei!

  4. Elisabete Fontoura fala: Responder

    Maravilhoso, muito contemporâneo, aos dias atuais.Bela escolha parabéns

  5. Tania fala: Responder

    Excelente análise ! Tema perfeito para o momento em que estamos vivendo!!! Bela escolha de poetiza!! Muito bom!

  6. Cecilia Covey fala: Responder

    Parabéns Lucas!!! Excelente tema e análise.

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