Meu Velho

Meu Velho Conto

Finalmente aprendi a usar computador e to escrevendo agora pra você do email de Paulinho. A gente achou esse email teu, mas não sabemo se tu usa ele ainda. Espero que tu use. Lê isso que tamo mandano e responde se receber. Não esquece. Faz é tempo que nós não conversa, né? Por aqui, você devia de vê, anda tudo bem parecido como tu deixou. Só umas coisa que foi surgindo com o tempo pra gente. Que o tempo faz isso. Vou te contar, viu… O avô mesmo tá meio adoentado. Agora deu pra não sair mais da cama. Primeiro por não querer, depois o corpo foi ficando pesado pra nós e pra ele. Você precisa de vê a trabalheira que tá dando. Mas a gente continua fazeno tudo junto como antigamente. Isso continua. Ainda somo bem família. E o vô, todo mundo sempre admirou, todo mundo fica agradecido por ele. Lembro bem que tu andava sempre do lado dele, naquele tempo que não tinha nada que desunia nossa turma, tu deve se lembrar bem. Sabe, às vezes fico acordado só sonhando com as coisa de antigamente. Dá uma alegria, que parece que to lá. Mas incomoda um tiquinho também. Eu fico me remexendo todo, sentindo umas queimaduras aqui no intestino, igual que to sentindo agora lembrando dessas coisas pra te contar. Coisa da idade, deve ser. Deve ser também coisa daquelas dor de barriga que eu sempre tinha, tu lembra? A gente ria a beça dessas coisa. Até hoje acredito que peguei isso naquela enchente que passamo junto quando fomo tudo pra Ribeirão dos Anjos no verão, lembra? Aquele sufoco todo. Se não fosse por você… Somos grato até hoje. Ricardinho sempre lembra de você na água suja com o cachorro dele no braço. Ele pergunta por você demais, o Ricardinho. A avó nem se fala. Sente tanta falta tua que vez em quando parece até que enfraquece de tudo. Ela vai lembrando de você enquanto cozinha, aí de repente para e fica quieta até de noite. E olha que a vó tem sido a mais guerreira aqui pra nós, viu? Ela teve que ficar forte demais da conta, aquela véia! To é vendo todo dia que ela que leva nós tudo nas costas praticamente. Até o Paraíso depois que vô arriô na cama, ela segura, a véia. Anteontem lá, a cabrita Margarida deu cria de novo. Lembra dela? É, tá vivinha ainda. Leosmar tá cuidando dos filhotes direitinho. O bicho aprendeu tão rápido a cuidar da roça que nem se acredita. Depois que, Jesus Cristo a tenha no céu, a esposa dele pegou aquela tosse braba e morreu, ele não parou mais de trabalhar, o coitado. Você nem reconhecia se visse. Tá homem forte, trabalhador, todo sério, sem muito aquelas palhaçadas de quando era mais moderno. É um bom sujeito, de vez em quando ainda faz a gente dá umas risadas, principalmente as criança. No começo eu até me preocupava com ele, que essas coisas me dói mesmo. Mas agora ele age tão independente de tudo, que parece que tá mais conformado. Já o Lindomar, que gostava tanto de você, não temo muita notícia dele, ele parece que nem é mais da família. Aquele lá não dá as caras faz é tempo. Só de tempo em tempo diz lá de longe pelo celular que não tá com tempo pra nada, que tá na maior luta e aquelas desculpa esfarrapada. Eu acho que a verdade é que ele nunca gostou do resto da gente, só de tu mesmo. Desde criança eu via isso. Ele olhava todo por cima de nós, até a comida tinha que fazer uma diferente só pra ele. Nem aquele bife de sábado ele nunca queria comer com aquela cara de nojento. Pra mim, ele vai ficar é longe até morrer. Não que eu deseje mal ao coitado, ele sempre me pareceu fraquinho de tudo. Mas tu que era mais próximo, com esse teu jeito de ser igual com tudo e com todos, sabe mais. Ah, se sabe… Tu sempre foi o mais esperto de nós, sempre vi isso. Já eu, só posso é desejar é que o bom Deus abençoe ele grandemente; independente, não é? Que a gente tem que ter confiança porque pra cada um tem um plano do nosso Senhor Jesus Cristo. Mas num to falando dele pra dá indireta em você, não. Não sou desses. Você me conhece e sabe que sempre falei as coisas na bucha. Isso me rendeu até encrenca um tempo atrás. Um sujeito tava vendendo coisa estragada e eu falei mesmo a verdade na lata dele pra todo mundo ouvir. Apanhei mais do que bati. E ninguém fez nada, só assistiu. Mas que os clientes dele ficaram avisado, ficaram. Essa valentia é de família, tu bem sabe. Tu devia de vê quando o Tonho foi pro tribunal, de uma briga num bar novo que tem aqui. Ele se arrumou todo, tudo alinhado, como ele sempre gostava. Vaidoso que só. As roupa dele ninguém nunca podia tocar, lembra? Teve que pagar uns meses de cana. Quase um ano lá dentro. Quando saiu passou aqui uma vez só, todo cheiroso e disse que ia pra capital. Não sei se volta. Mas acredito que volte, ele é respeitador com a família demais. Só agora que a gente vai vendo como cada qual foi indo de um jeito. Tu mesmo foi indo tão manso, que nós nem se deu conta que tu ia mesmo demorar tanto assim. Mas sei que tu teve teus motivos. Aquela crise foi braba, eu e Maria sabemo bem como foi duro pra tu aguentar aquele peso todo te adoecendo por dentro. Nós via como tu ficava. Mas na vida tudo tem caminho, eu creio, e tu com certeza pegou algum, graças a Deus. Tu casou? Se lembra de Priscilinha? Pois cresceu a beça. Até apareceu um tal de Carlindo, todo mundo ficou numa ciumera braba. Ela mesma ficou com vergonha porque teve que parar de falar de tu. O Carlindo deu um cachorrinho pra ela e agora é pelo pra todo lado. Nós que tem que se virar pra aguentar. Vó e Lucinha cuida de tudo. E eu nunca vi a vó reclamar dele. Parece que ela gostou da neta casar e ficar. Eu que não vou com a cara daquele sujeito. Por mim ela casava com você. Mas tu foi embora. Aí ficou parecendo que num queria. Aqui todo mundo tem vontade de ir embora, tu sabe bem, mas também tem os que não quer se desgrudar daqui. Pela vó ninguém saía. Tenho pra mim que se vô não tivesse na cama, muita coisa ele intervia e ia ser diferente. Mas eu te digo que as coisa não tá tão ruim de desesperar não. Ele mesmo, quando a gente chega no quarto, só diz coisa alegre pra gente. E fala numa dificuldade que faz a gente prestar mais atenção. A voz rouca. Dá sempre um frio na barriga. Fica todo mundo em silêncio pra conseguir ouvir. Depois volta todo mundo pros afazeres, suspirando. O Paulinho diz sempre no almoço que ele vai melhorar, que assim ele acredita, que conversou com uns médicos quando foi na capital. Diz que pode ser que precise ir pra lá pra sarar mais rápido da moleza, porque a cidade aqui não cresce nem pra dá remédio pro povo. E olha… é tudo paradão mesmo, como tu deixou. Só que por mim, não digo que tá ruim não. Só que às vezes não acontece nada e a gente fica igual uma bóia boiando no rio, fica todo mundo no seu canto pensando. Nessas horas é que mais dá aquela dor de barriga braba em mim. Mas isso é só quando num é os final de semana que junta todo mundo pra umas resenhas boas. Nós se diverte a beça. Lembramo esses dias até de quando tu vinha equilibrando um copo de cerveja na garupa da moto de Osmarzinho. Era uma alegria quando tu chegava assim. Uma bebedeira tranqüila, animava a gente. Tu e o Leosmar. Agora que Leosmar não bebe mais com a gente, eu que fiquei com a fama de cachaceiro da família. Até nessas festa nossa o Leosmar deu pra ficar só trabalhando, cuidando da churrasqueira. Mas eu já vi ele bebendo sozinho. Foi até esses dias. Eu vi ele jogado lá na roça. Mas foi uma vez só. Não contei pra ninguém. Ele tem o direito de tomar suas pinguinhas quieto. Todo mundo tem. E aquele sujeito tem o meu respeito. Todo concentrado. Se emocionou uma vez, que eu me lembre, depois da viuvez. Foi quando lembrou de tu. Ele não falou direito e ficou por isso mesmo, no mistério. Paulinho tá aqui do meu lado mandando lembrança e pedindo um endereço que ele vai te pegar pra a gente poder se encontrar. Ele me disse e é verdade, essa tecnologia ajuda a gente a procurar as coisa. Só não faz mesmo é a gente parar de procurar. Quando eu falo isso com ele, ele cai na risada. Mas qualquer coisa a gente pega um carro velho e se manda pra onde tu tá. Levo até vó comigo, se tiver certeza de onde tu vai tá. Vai ser uma festa. Chega meus olhos encheu de água aqui. E tome dor de barriga! O resto da família nem sabe que to mandando esse email pra tu. Eu não quero dá falso alarme de ter te achado. Vou esperar tu responder, que vai ser uma alegria. Principalmente da vó. E tu deve é ficar alegre também com umas coisa boa que aconteceu. O que tu sempre falou. Maria tá esperando nosso nenê. Eu queria tanto tu aqui pra batizar junto. E tamo numa animação com isso! Tu imagina? Maria lembrou logo de tu também. Depois disso até resolvemo colocar mais cartaz com teu rosto na rua. Tu já não viu um? Não fica zangado com nós. Nós só quer ter certeza que tu tá bem. E nós sentimo muita saudade de tu. Aqueles momento felizes. Bem que a mãe dizia pra aproveitar logo. Ela sabia das coisa, a mãe. Minha barriga vai é doer um monte ainda. Tu pode pelo meno trazer o frio pra ela, pra botar no lugar dessa dor? To brincando com você. Nos sonhos que tu vem, vem até as árvores onde a gente botou gangorra, lembra? Elas foi derrubada pelo seu Inácio pra vender pra fora. A paisagem aqui mudou um pouco. Queria que tu tivesse aqui pra tá vendo isso tudo. Num tá tão diferente, mas sei que tu aqui ia fazer tuas coisa. Sei que ia… Mas se teve que ir mesmo, que Deus o acompanhe sempre, meu velho. Esperamo que tudo tenha dado certo pra tu, que tu não teja sentindo essa falta que nós tem de tu. Quer dizer, nós carece também que tu sinta nossa falta. E não é que tejamo zangado, tamo é bem preocupado e pensativo por tu tá sumido esse tempo todo. E mesmo que esse email não chegue aí pra tu, nós vai, quer dizer, eu vou sempre ficar sonhando, de dor de barriga mesmo, que tu vai aparecer por cá qualquer dia, pra gente rir e poder resolver tudo e fazer tudo sarar aos pouquinho…

Glauber Costa publicou as crônicas “No longe, no dentro” e “Gênese”, ambas pela Coletânea Eldorado, da Celeiro de Escritores. Publicou os contos “Meu velho” e “O homem com cabeça de urubu”, na Revista Subversa, textos que fazem parte do primeiro e segundo volumes impressos. Escreve no blog http://glauber-manuscritos.blogspot.com.br/ e na Fanpage: Manuscritos

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