Metrópole

Segunda Crônica por Andressa Barichello

Se ela fosse a mulher no vender de balas do semáforo.

A sauna tóxica com cheiro de piche e cascalho. O som maior não é o das buzinas, dos aceleradores, dos tiros de motoca. A respiração dos carros, essa sim, é o que mais se ouve. Engrenagens que na luz vermelha do semáforo se resfriam. 

Caminhar entre os carros é como percorrer o centro de uma multidão formada por gente de diferentes alturas, entre atarracados e esguios, entre figuras dóceis e manobras toneladotraiçoeiras. Se ela fosse a mulher no vender de balas do semáforo, se ela penduricalhasse saquinhos nos retrovisores orelha, se ela. Os carros obedecem fila indiana como se houvesse entre eles uma corda, um imantado. Mas motos e bicicletas de presença menos ostensiva não permitem segurança sequer pelas frestas.

A filha da mulher estava sentada na mureta do posto de gasolina, à esquina, junto a duas bonecas de pano. De repente a menina gritou e foi grito de uma nota só. A mulher gingava para tentar ver além da linha de montagem cujas engrenagens se retomavam ainda lentas em razão do verde recém chegado.

A criança ressurge detrás da mureta, mãos para cima; entre os cinco dedos cada uma das duas bonecas agarradas pela altura das barrigas molengas e vazias. Como rendidas, todas as quatro riem do tombo. A mulher no vender de balas do semáforo sossega. 

Se ela fosse a mulher no vender de balas do semáforo, comemoraria também. É início de noite. O céu pede lanternas; isso confirmam os carros: seu piscar de luzes os humaniza, cúmplices, piscam e alertam: é preciso cautela ao cruzar a via.

Andressa Barichello nasceu em São Paulo e reside em Curitiba. É mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa e co-fundadora do projeto de Coinspiração Cultural Fotoverbe-se.com no qual realiza vivências com artistas. É autora do livro “Crônicas do Cotidiano e outras mais” vencedor do prêmio Alejandro Cabassa pela União Brasileira dos Escritores do Rio de Janeiro, publicado em 2014 pela Scortecci Editora.

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