Mercadoria 200

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Obra controversa, Mercadoria 200 foi exibido na 1ª Mostra de Cinema Russo Contemporâneo, que passou por Curitiba entre os dias 22 e 27 de Novembro. O filme, dirigido por Aleksei Balabanov, recebeu fortes críticas quando lançado, mas é hoje considerado uma obra seminal do cinema pós-soviético. Ambientado em 1984, ápice do envolvimento soviético no Afeganistão, o enredo gira em torno do sequestro de uma jovem e seus desdobramentos em diversos personagens. Atos de abuso sexual e psicológico são exibidos de forma explícita, com evidente intenção de causar repulsa.

Críticos ocidentais têm a tendência de enxergar todo o cinema produzido nos países que compunham a União Soviética de um jeito um tanto maniqueísta. Filmes são classificados dentro de um único espectro: ou crítica ao regime ou propaganda do Kremlin. Este filme, ao apresentar um oficial soviético como um sádico ensandecido seria, portanto, anti-Kremlin. Ironias à parte, muitos cineastas russos também criticaram o filme por esse viés, acusando-o de oferecer uma visão parcial da realidade soviética. De fato, tudo em Mercadoria 200 grita decadência, a começar com a ambientação; cidades, carros, casas, tudo é velho, decrépito. As matizes dominantes são o cinza, o preto e o branco; o tempo sempre ruim, os bairros repletos de horríveis edificações industriais. O personagem principal quem sabe seja também reflexo disso: a personificação da decadência moral de todo um sistema.

Para aqueles capazes de tolerar e temática do enredo, Mercadoria 200 apresenta um painel da sociedade soviética nos anos imediatamente anteriores ao colapso do estado. Apesar de um viés evidente, a obra nos permite um raro insight da cultura desse país emblemático. Do professor universitário de ateísmo científico até o mujique fabricante ilegal de álcool, o filme transborda a lendária “alma russa”, tão alardeada nos grandes clássicos desse país, aqui sob um ângulo muito mais sinistro.

Por Henrique Fanini Leite

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