A Menina e seu Agasalho

Segunda Crônica por Andressa Barichello

Na minha frente, dentro do biarticulado, uma adolescente morde o cadarço de sua blusa de moletom.  As voltas que o ônibus faz ao percorrer a canaleta são como as ondas que ela faz ao cadarço quando o movimenta com as mãos.

O cadarço desce de um capuz e ladeia o zíper central. Tal e qual o do par de tênis, é apenas um, mas faz dois. Repousa sobre o peito, como que em descida, tem pontas que balançam. E são elas que, agora contrárias à gravidade, vão à boca para serem empapadas de saliva.

Nem fino nem grosso e com arremate rígido e cilíndrico, o cadarço parece ter textura de colmeia, que é doce, ou de esparadrapo. Mastigar um cadarço não é doce nem faz curativo, mas pode ser estimulante e terapêutico.

Ensaiar devolver, fingir cuspir. Depois resgatar para dentro da boca. Deixá-lo parado. Prendê-lo suave. Fingir bife, chicletes, bochecho. Evitar uma ânsia.

Eu também conheço esse gosto. A maciez, as extremidades – únicas que não podem ser marcadas pelos dentes. Houve tempo em que também provei a ruminação dos tecidos moles. A segurança das coisas que, presas a um corpo, não podem ser engolidas nem processadas pelo estômago. Cadarços tem um gosto acre, cadarços amarram a boca. Não sei quando foi que parei de mastigá-los, desconfio ter sido ao início da vida adulta. Cadarço, não fosse áspero, podia brincar de espaguete.

Minha identificação com a adolescente com cara de debochada, entretanto, durou pouco. Voltei a mim quando ela, percebendo-se encarada, devolveu um olhar fixo. A freada brusca do ônibus lançou meu corpo para frente, causou vertigem. Vendo a adolescente lenta e relaxada no encosto da poltrona eu senti, de repente, um nojo, nojo e repulsa. Hoje eu sou aquela que, se pudesse, diria: tira esse cadarço da boca, menina! Talvez também dissesse mais: não seja porca, isso é sujo, vai ficar fedendo.

Olho pela janela, por sorte a Marechal Floriano parece nunca ter fim. A adolescente não sabe, mas estou de mal com ela – meu rosto virado é cara virada. Porque sei que cadarços também são espécie de cordão. Uma fita, um fio com os quais a gente pode fazer laço. Cadarços teimam em desamarrar, em causar tropeços. Mas, já bem amarrada, eu só quero lembrá-los como pedaço de pano costurado que serve a tornar roupas e sapatos mais ajustados – ou apertados.

Podem ser tantos os cordéis encantados de uma menina. Gostaria de ser uma mulher mais generosa com elas, mas as vezes não consigo. Por que o retorno de tudo que abandonamos ou perdemos guarda sempre algo de insuportável?

Andressa Barichello nasceu em São Paulo e reside em Curitiba. É mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa e co-fundadora do projeto de Coinspiração Cultural Fotoverbe-se.com no qual realiza vivências com artistas. É autora do livro “Crônicas do Cotidiano e outras mais” vencedor do prêmio Alejandro Cabassa pela União Brasileira dos Escritores do Rio de Janeiro, publicado em 2014 pela Scortecci Editora. 

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