Medicina Alternativa

Crônica de Segunda por Cid Brasil

Minha avó tinha horror a hospitais. Dizia que médicos não passavam de indivíduos tenazes que aguentavam cinco anos dentro de uma universidade só para prescreverem dipironas e utilizar a alcunha de virose para qualquer enfermidade. Para ela era preferível ter um filho ou um neto filiado ao PMDB do que vê-los recitar o juramento de Hipócrates.

Na época que ela faleceu lembro que as pessoas estavam muito espiritualizadas e tentando lidar melhor com o oculto, tudo graças a uma novela que falava muito de vida após a morte e espiritismo chamada A Viagem. Até na salinha da catequese da escola as perguntas mais insólitas envolvendo a novela tomavam o espaço sabático que devia ser destinado a Moisés, Jesus e o resto da galera da bíblia.

A professorinha na maior paciência não deixava ninguém sem resposta, mesmo que certas perguntas tivessem de ser respondidas por um diretor dos estúdios globo ou um kardecista. Como foi o caso do dia em que uma menina perguntou se era verdade, conforme retratado na telinha, se uma das punições de quem ia para o inferno era permanecer a eternidade com a roupa que tinha morrido. Dessa novela eu recordo ainda que sentia um gélido pavor de um personagem mascarado com o rosto desfigurado por queimaduras, e mesmo estando de costas para a TV por medo dele se desmascarar novamente, eu sabia que aquela era uma pergunta idiota da colega, pois era nítido que enquanto os mocinhos usavam túnicas brancas e passeavam para lá e para cá no Parque do Ibirapuera só permanecia com as roupas do corpo os que usavam muita cocaína e não prestavam as contas à Ancine, como no caso do Guilherme Fontes.

Após três sábados discutindo desde a abertura de Hans Donner até o casting do purgatório, abandonei o grupo de debates do núcleo Wolf Maya travestido de catequese. Queria aproveitar melhor meus finais de semana, mas quis o destino ou o próprio Roberto Marinho, que no primeiro dia livre meus anticorpos debandassem como eu e meus amigos fugíamos ao ver o Mascarado em cena. Padeci de um mal tão misterioso que durante oito dias tive febres e vômitos ininterruptos, até que alguém, talvez um espirito zombeteiro por medo do contágio ou talvez a empregada para sacanear meus pais, sugeriu que me levassem num curandeiro, já que ela sabia que meus velhos, principalmente minha mãe, detestavam médicos e seus discursos manjados.

Lembro que fomos a pé, minha mãe e eu, junto com a empregada até a casa onde uma velha que alegavam estar dando prejuízo nas farmácias das redondezas. Não sei se a longa caminhada era parte da terapia, funcionando como uma espécie de ritual de purificação, mas apesar de distante fui me sentindo um pouco melhor no trajeto e talvez só o que precisasse era de um pouco de exercício. A porta da casa estava aberta. Da rua conseguíamos ver uma velhinha tão magra e enrugada quanto um pé de eucalipto.

Ela estava vendo o programa do Chaves e antes de perguntar o que queríamos ou de pedir que entrássemos olhou bem para nossos pés empoeirados e com certa solenidade necromante pediu que deixássemos as sandálias na porta – disse que tinha acabado de passar o pano na sala. Um gato cuja obesidade chegava a ser ofensiva perante ela dormia ao seu lado.

— Qual o problema do menino? – Perguntou a benzedeira, não sem antes bufar por ter de desligar a TV.

Minha mãe tentou responder que talvez eu estivesse com mau olhado. A empregada dizia que era encosto. Após uma breve confusão que poderia ter nos levado a um tribunal de pequenas causas, a velha bateu as mãos e pediu que as duas ficassem em silêncio. Como se matutasse seus pensamentos ou mastigasse os últimos caroços de feijão na boca pediu que aguardássemos um pouco e atravessou uma cortina de renda, indo até o interior do casebre. Umas vozes vieram de dentro, tratava-se do Chaves de novo. Ela havia ligado uma outra TV. Passado cinco minutos ouvi a inconfundível vinheta de encerramento e finalmente ela voltou, com aspecto mais ameno e trazendo um ramalhete de folhas e galhos secos.

Pôs a outra mão na minha cabeça e recitou uma oração logo de cara. Depois passou as folhas pelos meus ombros e em seguida pediu que minha mãe e a empregada me pusessem de cabeça para baixo, segurando-me pelos pés, para terminar a benção. As duas disseram que não tinham forças para isso, e eu, temendo que me afrouxassem a moleira no chão, disse que já estava melhor, que não precisava. Esperem aí de novo, disse ela, que vou chamar um vizinho mais parrudo aqui.

Outros minutos se passaram até um homem-grávido vir junto com a velha. Sem cerimonia ele alisou a barriga e foi logo segurando-me os pés, pedindo que não tivesse medo, que seu filho era mais gordo que eu. Fiquei de ponta cabeça e fui chacoalhado por duas vezes, como numa esquete do Chaves onde tentavam-me roubar as moedas. No fim da consulta minha mãe estendeu uma nota de dez que a velha se recusou a pegar alegando que aquilo era um dom, não um meio de ganhar dinheiro.

Após muita insistência, só concordou em pegar a gorjeta depois de alegar que seria unicamente para a ração do Santo, o gato, que estava no fim. Depois alisou-me os cabelos e disse que se eu não melhorasse seria bom tomar dipirona ou procurar um médico. Podia ser só uma virose mesmo.

Cid Brasil é escritor, algo entre José Sarney e James Joyce.

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