Majestades Urbanas

Segunda Crônica por Andressa Barichello

No topo de um dos prédios mais altos do centro de Curitiba há um relógio. Durante o dia nunca consegui enxergar as horas em seus ponteiros analógicos. Quando é noite, a circunferência iluminada se confunde com a lua.

Uma construção de igual altura foi erguida no terreno vizinho. Arquitetura neoclássica e muito grafiato. Entretanto, ser “o prédio ao lado do prédio do relógio” sempre pareceu pouco para incontáveis pretensões de opulência. Posando ao lado de um famoso, como ser lembrado por seus próprios méritos? Inserir qualquer coisa no topo? Soaria plágio, transpiraria inveja.

Alguém há de ter dito que única alternativa seria encontrar um ornamento capaz de representar uma ideia; como relógio a se transformar em totem lunar. Mas no caso do “prédio ao lado do prédio do relógio” o objeto deveria ser alocado já na fachada. A escolha pelo chão desmontaria o eventual argumento de haver ânimo de se aparecer mais que o outro; dois edifícios feito essas senhoras de alta classe que somam extravagâncias para parecerem mais endinheiradas e criativas umas perante as outras e todas elas perante sabe-se lá quem.

Para o imperativo de ser original, que coisa melhor para desbancar ou ao menos fazer frente à lua das horas, senão algo com sol?

Terá sido mais ou menos assim a história sobre a decisão de colocar à frente das colunas a estátua de dois leões brancos, lado a lado? Não importa. Gosto de acreditar que a busca pelo astro rei tenha sido o ponto de partida para se chegar ao vislumbre de um leão – animal majestoso, luminoso, verdadeiro símbolo solar.

Inspeção feita à distância, não encontrei nas estátuas vestígios de asa – o que faço questão de mencionar para que ninguém arrisque analogia com o manjado leão de São Marcos. Minha quase tese sobre as estátuas leoninas dispostas como leões de chácara deve ter alguma consistência.

Ainda que a razão-de-ser arquitetônica que inventei não exista, ela incrementa uma suspeita: nossos atos contêm uma parte imprevista – a parte deles que é controlada pelos outros. O efeito colateral de toda ação – ou a parte colateral de todo efeito? Será que algum dia houve ideia capaz de alcançar seus propósitos com perfeição? De que valem as intenções?

É que os leões brancos fixos como rochas, são cobertos ao final de cada dia por uma lona. Certa vez acompanhei a trabalheira dos homens de terno preto para contornar as feras e embrulhá-las como se faz ao rosto das estátuas em tempos de protesto. Todo dia antes de anoitecer os felinos saem de cena, como que censurados.

A providência em prol da integridade das peças que pela madrugada poderiam receber intervenções e ganhar bocas magenta, cílios postiços ou palavras de ordem será que protege ou oculta mais alguma coisa além de corpos enrijecidos?

Melhor fazer tal e qual os políticos quando fogem das chuvas de ovo. Pensados para emanar o poder do sol, os leões não conquistam sequer as gemas. Acabaram por ser nada mais que alegorias desbotadas, garotos que tem as costas quentes – sendo esse tipo de calor o único para esfinges modernas, desinvestidas do poder de abrir portões caso alguém lhes dirija palavras mágicas. Não há interação possível com o outro quando se vive à altura da calçada sonhando com a languidez do que cintila no céu.

Ser “o prédio ao lado do prédio do relógioé que talvez fosse grandeza. Viver à sombra da lua pode ter lá suas vantagens. Melhor que ser “prédio dos leões que vivem cobertos, bem ao lado do prédio do relógio”. Ser admirado implica poder arcar com algum tipo de devastação. É grande a pena daqueles que recusam submeter-se às leis da selva.

Andressa Barichello nasceu em São Paulo e reside em Curitiba. É mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa e co-fundadora do projeto de Coinspiração Cultural Fotoverbe-se.com no qual realiza vivências com artistas. É autora do livro “Crônicas do Cotidiano e outras mais” vencedor do prêmio Alejandro Cabassa pela União Brasileira dos Escritores do Rio de Janeiro, publicado em 2014 pela Scortecci Editora. 

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