Sobre Livros e Glórias do Autor

Segunda Crônica por Cid Brasil

LIVROS

Paulo Coelho tem mesmo razão quando sentou às margens do rio Piedra e chorou antes de rabiscar mais um best-seller, pois é sempre difícil você sentar em público, abrir um livro e não ser vitimado pela alquimia brasileira de verem Graça Infinita (na edição da Cia. das Letras de bordas alaranjadas) e confundirem com uma bíblia, apesar da caveira na capa.

Assim como perguntarem se qualquer romance mais encorpado não é Direito Tributário.

Livros tem mesmo essa dubiedade perigosa de ser considerado coisa sagrada ou gatilho de maluco, ainda que essa comparação pueril possa servir tanto para armas de fogo quanto para sexo, embora seja comprovado que há recantos desse país onde um revólver em cima da mesinha de um café chame menos a atenção do que alguém lendo, como é o caso dessa situação verídica que considero um de meus troféus literários junto de alguns furtos em livrarias.

XXI PRÊMIO DE INCENTIVO A CULTURA LITERÁRIA

Da redação

Outorgada num café de Maceió, no bairro da Jatiúca, o autor foi agraciado com o vigésimo primeiro prêmio de incentivo a cultura literária na forma de uma abordagem policial. Não por atentado ao pudor ou assassinato de poodles, mas sim por permanecer duas horas escrevendo um conto tendo consumido apenas um café com leite pequeno.

Pensaram, disse o policial na entrega do prêmio no estacionamento do Café, que você mapeava o lugar. Os funcionários acharam que você estava marcando a saída, a entrada e os pontos cegos do café.

Apesar dessa outorga, o autor não perdeu a humildade ou abandonou as raízes, garante, continuou indo até o café por algum tempo. Afinal, é como diz a máxima Felliniana “é mais fácil ser fiel a um restaurante do que a uma mulher”. Porém, como também sempre acontece após enormes consagrações, o autor tornou-se ágrafo. Ou pelo menos um cliente sem lápis nem papel. Um cliente ainda mais desconfiado e que sequer puxava assunto com os garçons ou outros clientes, querendo apenas desmistificar a imagem de possível criminoso. Até que uma tarde, com receio de que o denunciassem outra vez por frequentar o Café do Medo, abandonou incertas mesas.

No dia da abordagem, o policial que veio até o autor chamava-se Ramos, Cabo Ramos. Algo muito justo, coerente e até sensível da parte deles mandar algum possível parente de Graciliano Ramos para abordar um escritor em Maceió; pelo menos da parte do acaso, esse jurado cego e analfabeto.

Estamos em Maceió, não em Paris, Buenos Aires ou Barcelona e, escrever, assim como ler ou respirar, é algo muito perigoso.

O Cabo Ramos (que na verdade se chamava Cabo Gonçalves Ramos) revelou existirem muitos soldados, sargentos e outros cabos da família Ramos na corporação, mas que por um lance de sorte – olha ela aí – não precisou anexar o G. à sua identificação de policial. Apuramos ainda este pequeno drama em um ato durante a premiação:

Cabo Ramos: Você é estudante ou quê?

Autor (com extrema humildade): Não…

Cabo Ramos: Então que diabos você estava anotando lá?

Autor (apreensivo, temendo imiscuir-se em mais confusões, mente): Estava escrevendo uma carta…

Cabo Ramos: Uma carta? Mas para que escrever uma carta, com wi-fi, e-mail, zapzap, celular, telégrafo, telefone…

Autor (com risinho de canto de boca): Telégrafo?

Cabo Ramos: …

Autor: É… Estava escrevendo uma carta.

Cabo Ramos: …

Autor: Me candidatando a uma vaga de emprego. Carta de apresentação.

Cabo Ramos: Ah, sim! Fique tranquilo que não vou nem registrar a queixa deles, mas seria bom você não voltar lá de novo, pelo menos agora.

Autor: Tudo bem.

Em seguida o policial e o autor apertam as mãos. Cabo Ramos pergunta onde o autor mora. Ao saber que é muito longe dali o policial se compadece do autor e oferece uma carona. O autor, temendo deixar o âmbito das letras para virar estatística devido aos recentes casos envolvendo obras policiais, diz que não é preciso.

MENÇÃO HONROSA AO MELHOR DETETIVE LITERÁRIO

Não esqueço nunca também um amigo da família que vivia elogiando para minha mãe o filho, contando que o moleque tinha pilhas e mais pilhas, maiores que o próprio menino, de Livros no quarto; que torrava toda a grana que pegava em Livros. E não contente (em humilhar-me, por tabela), ainda queria medicina o danado. Minha inveja era tremenda pelo tempo que os adultos passavam lambendo o prodígio-modelo quando o assunto era educação, rebeldia e orgulho infantil. Numa tarde, o pai dele apareceu para assistir a um jogo na TV com meu pai e fiquei fazendo sala. Inevitavelmente ele falou do filho, disse que o menino lia até em japonês. Foi aí que uma luz acendeu, 13 anos e lendo japonês só podia significar uma coisa.

Seu Queiroz, perguntei, esses Livros que seu filho lê, tem uns desenhos, são tipo assim, meio como gibis?

Não sei, Cidinho… Vejo só umas figuras na capa, mas nunca folheei, só sei que… Ele compra… Alguns… Na… banca e outros Livros chegam pelo correio.

Ficou intrigado com aquele meu comentário, apesar de não falar nada mesmo ouvindo o som das fichas caindo durante nosso papo. Uma semana depois ele telefonou e ao invés de pedir para falar com meu pai de cara, queria antes prosear um pouco comigo, tirar umas dúvidas.

Ainda hoje me culpo por ter acabado com a boa vida desse menino ao transforma-lo num mero mortal aos olhos do pai, ignorante às montanhas de mangás eróticos que afetavam não só a economia doméstica dos Queiroz como a outros fac-símiles de seu filho no bairro.

Mas se há mais verdades que confusão nos velhos deitados, digo, nos velhos ditados, é essa: um dia da traça, outro do editor.

II PRÊMIO ORGULHO MATERNO

Uma tarde, fui buscar minha mamãe no salão de beleza e após o cumprimento as damas presentes, sentei-me num canto e fiquei folheando as revistas. A certa altura notei ela me apontar e dizer baixinho para as colegas que era seu filho, e que era Escritor. Vendo o rosto impressionado de algumas, mamãe prosseguiu e disse que eu já havia inclusive escrito não um, mas dois livros!

Que maravilha, uma das ouvintes comentou.

Muito bom mesmo, disse outra.

Até ali a única coisa que eu havia escrito de verdade eram alguns contos muito mal arranjados onde as erratas pareciam ser o personagem principal da maioria, além de uns parcos relatos que insisti em chamar de crônicas e cuja esnobada num prêmio literário estava afetando minha produção. A única coisa que eu fazia com alguma competência era me trancar no quarto e me masturbar freneticamente perante o computador, usando sempre a desculpa de que iria escrever e que por isso acordava tão tarde.

Ainda assim, vendo seu entusiasmo junto das colegas de salão, fiquei desconcertado e um tanto comovido com esse típico orgulho que as mães nutrem por suas crias e ali percebi que mesmo se eu fosse um assassino, mamãe diria com o mesmo orgulho:

Esse daí é meu menino e já matou três pessoas.

Mesmo? Indagariam as outras.

E por encomenda!

Ou quem sabe não mudaria em nada, tenho certeza, se ela soubesse de minha real ocupação no quarto:

Esse daí é meu menino e bate até três punhetas por noite!

Cid Brasil é escritor, algo entre José Sarney e James Joyce. 

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