Linha de Consumo

linha de consumo

Inspirado no conto de Natasha Tinet

Dois homens de terno cinzento, com camisas brancas, andam num corredor interminável. O piso é de carpet cinza, as paredes, brancas. De vez em quando passam por um extintor pendurado ou uma porta. Conversam.

– O setor de queijos e vinhos bateu novo recorde. Aumentaram o consumo em cinco toneladas em menos de seis meses.

– Mas não pode ser! A equipe deles é pequena, cinco toneladas…

– Sim, mas com o aumento do teor de gordura no leite industrial, aumentou a produtividade operacional de toda a cadeia, estavam escalando montanhas de queijo.

– Como andam os estoques?

– Estabilizaram, acham que vão começar a reduzir no próximo mês.

– Sorte a deles, o departamento de estocagem está uma loucura; têm certeza que não vão aguentar próximo ano.

– Só não entendo porque não automatizaram o processo de consumo ainda. É de longe nossa maior folha de pagamento. A lucratividade poderia subir bem uns dez por cento.

– São as regulações. Todas as atividades de consumo são operadas por humanos.

– Lembra dos mastigadores elétricos? Só isso já causou um aumento de produtividade em quase quatorze por cento.

– De curto prazo, tenho certeza de que você lembra. Os funcionários ficaram desmotivados e em três meses a linha já estava consumindo menos do que anteriormente.

– Em alguns casos. O setor de nozes teve aumento de vinte e cinco por cento, duradouro, por sinal. Não teria sido isso que fez o queijos e vinhos disparar?

– Não. Mastigadores não ajudam muito com queijos e vinhos. Acho que com eles foi questão de pessoal. A moral andava baixa, você sabe como queijo pode ser desgastante. Deram um adicional de insalubridade por quilograma consumido além da quota negociada pelo sindicato.

– Adicional de insalubridade? Capaz! Não acha que estão gastando demais com eles?

– Conseguiram uma verba governamental de suporte ao consumo de bens de luxo, vai financiar as garrafas.

– Notícias boas, então.

– Bem, Dalton, não para nós. A produção de farelo de milho cresceu mais de dez por cento ano passado.

– Ué, não vi ninguém do setor de cereais comentar nada.

– É porque não é o setor de cereais que processa farelo de milho, não é considerado comida. Usam principalmente como ração de galinhas.

– Galinhas?

– Sim, e esse aumento vai refletir na produção de carne de frango. Vamos ter que comer pelo menos mais umas cem gramas por dia por funcionário.

Por Henrique Fanini Leite

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