Linha 13

Victor R. Maciel, 37 anos, motorista de ônibus. Encoste nele não, menina, sai daí, tem perigo de explodir tudo! Traduziu o berro da velhota em meio ao que soava como um culto falado em línguas. A trilha sonora nublada foi ganhando sentido à medida que a consciência ia se libertando das ferragens. Descascou o sangue dos olhos arrancando os cílios como se fossem postiços. A luz gritava, mil deuses pareciam ter baixado para uma força-tarefa, transcende as diferenças, cara, foca na sinergia do grupo. E otimizaram a iluminação. E quase cegaram Victor. Que puxou o espelhinho, colocou os óculos escuros e ajeitou os cabelos e os cotocos para contemplar o apocalipse. Os pombos voavam em câmera lenta espalhando poeira e pipocas flutuantes, cabelos subaquáticos dançavam contemporâneos e, no horizonte, o céu em tons de sobremesa aromatizava os caldos gourmet que escorriam pelas ruas e bocas. Um canto de agonia rompeu o estado de transe e desviou sua atenção do parabrisa IMax para o fundo do veículo. Pelo espelho, viu e não gostou. O peso da responsabilidade o obrigou a acender um cigarro pra poder puxar o ar. — Calma aí, caralho. Nada disso foi culpa minha! enquanto olhava pela tangente para o cobrador, sem esperar resposta. E sabe o que mais? Esse latão não é a porra de um navio. Não sou obrigado a afundar com vocês. E veio a epifania que fez bambolear os membros fantasmas. Não, sou, obrigado. Pronunciou cada palavra no ritmo arrastado da porta automática, que abria e fechava por conta própria, também deslumbrada com a sensação de liberdade. Mergulhou seco, palmas e ossos ilíacos no metal melado. — Entrem, entrem todos de uma vez só, acotovelem grávidas e crianças primeiro! Histriônico, deslizava escada abaixo, prensado duas ou três vezes pela porta rebelde. — Sozinho no ponto abanando identidade? Fica pra próxima, vovô! Engasgava-se em gargalhadas espumantes. — Rua Padre Afonso, 322? Sei não, tenho raiva de quem sabe.
Em uma felicidade abobada, atravessava as desgraças dos outros com braçadas dignas. Deixava pra trás muito mais do que peles no asfalto. — Três oitão na cabeça? Sai pra lá, rapá! Tem mais disso aqui não, miserável. Não sou, obrigado. Não sou obrigado.

Por Mia Lopes

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