Língua Mãe

Era sábado e às onze da noite havia pouca gente à espera do metro. Ouvia-se bem os ecos da gravação de avisos sonoros da estação: “proteja seus bens, esteja sempre atento à entrada e à saída do comboio”.

Talvez por não ter bens a proteger, guardo sempre e apenas a recomendação para estar atenta “à entrada e à saída”. Não presto atenção em quem se aproxima, procuro pessoas em quem possa “chegar junto”. Com essa iniciativa estou mais para praticante de pequenos furtos do que para vítima. Preciso de palavras para contar histórias e sei tomá-las sem prejuízo a quem possa ter as que me interessam.

Poderia até dizer que faço empréstimos, não fosse sentir a apropriação. Ao mesmo tempo em que todas as palavras colhidas serão devolvidas em forma de qualquer outra história, será tão difícil alcançarem um dia aqueles responsáveis por inspirá-las que o gesto parece via de mão única. A não ser, é claro, que de história em história a vida seja uma condição onde todo dito é escutado em segredo por alguém que dali inicia um telefone sem fio. Um telefone sem fio diferente, sem hipótese de devolver-nos aquilo que dissemos, pelo contrário: fadado mesmo a ser interrompido depois de alcançar certa distância, numa brincadeira capaz de tudo senão de voltar ao ponto de início.

Voltar ao ponto de início só é possível no texto, ainda bem, então pelo menos nele posso retomar a palavra, o fio, e dizer: era sábado e às onze da noite havia pouca gente à espera do metro. Então ouvi a voz de um homem ao telefone. E por mais que a conversa dele não fluísse em alto e bom som como fluía, é certo que outras mil vezes eu seria captada pela cadência do “português brasileiro”.

 Não importa quão habitual seja cruzar com brasileiros em todos os espaços: detectar a presença da língua materna causa sempre um sobressalto. Depois, uma pausa para entender o que se passa e, já recomposta, prosseguir como quem refletiu: “ah, era só alguém de onde eu vim”.

 Eu venho do desejo de um homem e de uma mulher, mas também venho de uma certa língua. Uma língua que se espalha por um continente, e que lá no sudeste, onde eu nasci, tem um ti com som de tchi e um di com som de dji. Uma língua na qual os gerúndios fazem pontos como se a maior parte do que se vive fosse uma ação em processo ou progresso. Haverá sempre uma diferença entre o que está a acontecer e o que está acontecendo, porque o acontecendo é aqui e agora, decorre, mas é também tão remoto que eu nem posso explicar. Eu não estou a ser, estou sendo. Estou doendo, amando, pensando e dizendo.

Houve tempos em que, ao ouvir brasileiros em Lisboa, minha reação era por-me a falar; falar para ser de uma vez identificada, reconhecida, como quem quer denunciar um “eu também”. Eu também o que? Eu também sei o que é estar longe do pé, nascer nessa mesma e outra língua, construir um mundo com base numa “variante” cheia de diminutivos e que usa a terceira pessoa para tratar os íntimos, os mais íntimos!, num você que tem circunflexo no “e” mas também no “o” porque diz-se vôcê e não vócê (como insistem os portugueses quando por um esforço de gentileza tentam retribuir o pronome de tratamento).

Encontro o você nas cartas mais formais de Pessoa e fico pensando por qual razão para mim um tu sabes tu vives tu amas será para sempre a linguagem romântica e antiga das trovas, do canto às musas. E fico pensando na maluquice que é poder defender o indefensável e afirmar, contra tudo e todos, que dizer um tu sabe, tu vive, tu ama é tão mais gostoso, porque tão mais… Gaúcho? Tu sabe, tu vive, tu ama é tão mais bonito quanto mais singelo isso de transmitir por gerações inteiras o equívoco de uma conjugação. Dói e reconforta lembrar que uma língua coloniza mas não consegue evitar a calcificação da falha, a ruptura, a cicatriz-denúncia.

Nos últimos tempos, quando escuto brasileiros, já não me denuncio. Agora engulo as palavras, mantenho um silêncio intencional e zeloso. Ajo como quem desfruta de um prazer clandestino, como quem reconhece os pares mas deseja continuar perdido em meio ao bolo de cartas, cercado e protegido do jogo. Preciso ouvir as vogais todas que também são minhas, notícias de um estar no mundo que para avançar tal como tem de ser não admite a minha interrupção; uma intervenção que não serviria senão a fazer-me notar à custa de interromper o deleite sonoro que por instantes engana a saudade. Quando escuto sair da boca de alguém o som do português falado no Brasil, saboreio palavra por palavra, fosse cada palavra uma manga madura dessas que vendidas no supermercado vêm com um selo de origem: Bahia.

Preciso silenciar para espiar o jeito de ser daquilo que tenho como dado e certo. Hesito como um bebê inexperiente diante do próprio corpo. Não consigo prestar atenção ao contexto, a vibração dos tímpanos produz a desatenção dos apaixonados. As palavras feito vagões se ligam umas às outras e nelas embarco para seguir adiante.

Era sábado e às onze da noite havia pouca gente à espera do metro. Ouvia-se bem os ecos dos sinais de avisos sonoros da estação. Então ouvi a voz de um homem ao telefone. Não. Então ouvi a voz de um brasileiro ao telefone. Não. Então ouvi a voz de um paulistano ao telefone. E queria ter podido ouvir o que ele contava e furtar um pedacinho que fosse daquela história…

Mas há momentos em que a identificação com o outro é tão grande que não se pode escutar nada além de si mesmo.

 

Andressa Barichello nasceu em São Paulo. É mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa e co-fundadora do projeto de Coinspiração Cultural Fotoverbe-se.com no qual realiza vivências com artistas. É autora do livro “Crônicas do Cotidiano e outras mais” vencedor do prêmio Alejandro Cabassa pela União Brasileira dos Escritores do Rio de Janeiro, publicado em 2014 pela Scortecci Editora.

Arte: Nanna Ajzental

2 Comentários

  1. Uma maneira deliciosa de escrever com sensibilidade e coloquial. Adoro, simplesmente.
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  2. Que lindo seu texto Andressa. Lemos junto, rimos muito, nos identificamos e apreciamos a beleza de suas construções.

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