Limpeza Pesada

Meu amor, acho que nessa posição te doem os braços. Estou errada? Não me diga. Logo a polícia estará aqui. E entrará em casa feito cão faminto de rua procurando uma merda qualquer de evidência. É isso que eles chamam. Evidência. Só pra saciar essa fome que eles têm de justiça. Justiça, meu amor. Isso mesmo, justiça. Essa palavra que anda cariada na boca. E que não serve pra nada. Tá vendo? E acho que eu também não presto. Não, acho que não. A mancha no tapete quem limpa? Tu ainda me dá prejuízo, me dá. Mas, como boa esposa que sou, vou levantar esse tapete pesado e jogar no tanque. Limpeza pesada. Sabão em pó e escova de aço. Esfrego a tua cara e limpo o chão com ela. Eu me importo com os seus braços e tu ainda me dá prejuízo, meu bem. Prejudica a projeção. Quando a polícia chegar e vasculhar tudo, verá o tapete no tanque, aquele cheirinho gostoso de amaciante. E vai me perguntar a marca, porque querem dizer para suas esposas que a comprem na próxima compra do mês. E, como boas esposas que são, lavarão as fardas de seus maridos com a marca de amaciante que descobriram na casa de uma assassina. Talvez eu não preste mesmo. Sabe quando a gente deixa por muito tempo? Se me pegarem, o tapete vai apodrecer no amaciante. E você também. Sabe quando a gente se deixa levar por muito tempo? Cheiro de lavanda que vira cheiro de merda. Não sei quem vai apodrecer primeiro. Qual será o teu gosto na boca dos ratos? Também não sei. Olha, é um bom teste para ser feito sobre as incompatibilidades humanas com o mundo material, não acha? Esses testes onde aquele povo inventa a verdade. E eu odeio lavar o tapete, querido, você sabe. Então, faz uma coisa por mim? É só botar essa língua pra dentro. Calma aí, vou te ajudar. É assim. Quase engasgando. Nada de sangue no assoalho. Nada de leite derramado. Nem choro, chorume. Nem vela. Só um chá que me queima a língua. Nem saco de lixo eu tenho. Pra guardar a sua carne fedida e as coisas que não me disse. Pra guardar a sua falta de escrúpulos e a minha imprestabilidade. Quando a polícia chegar, é bom que esteja com a língua pra dentro. Poeta morto calado. Não cairia bem te pegarem neste estado. Com a boca lotada de formiga. De cárie. De tanto falar justiça justiça justiça. O que eu faço contigo, meu bem? Essa crise não perdoa ninguém.


Luiz Henrique Moreira Soares é natural de Jaboti (PR). Graduou-se em Letras pela Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP). Atualmente, cursa mestrado em Letras na Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP/Ibilce) – Campus de São José do Rio Preto.

1 Comentário

  1. Tania fala: Responder

    Adorei

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