Leviathan

Andrey Zvyagintsev não poderia ter escolhido momento melhor para publicar seu quarto filme, que estreiou no festival de Cannes pouco mais de um mês após o estopim da crise da Crimeia. Leviathan é um filme que denuncia as estruturas de poder do estado russo, retratadas como corruptas, autoritárias e hipócritas. A obra rendeu pelo menos mais uma dezena de premiações para a lista de Zvyagintsev, diretor de O Retorno e Elena.

Numa pequena cidade no norte da Rússia, o mecânico alcoólatra Kolya enfrenta o prefeito corrupto da cidade, Vadim, que pretende desapropriar sua casa. Embora o político alegue que a cidade necessita do espaço para construir uma torre de telecomunicações, há suspeita de que a usará em benefício próprio. Na disputa, recebe ajuda de Dima, advogado bem sucedido que retorna à cidade especialmente para o caso. Nesse enredo que caberia facilmente em um cenário do semi-árido nordestino, os conflitos humanos vão muito além dos conflitos legais.

Com identidade distintamente Russa, Leviathan apresenta tomadas desoladoras da costa de Murman, bem como do vilarejo de Teriberka. Apesar da clara mensagem política, o filme não é demagógico. Seu maior mérito é não deixar que nenhum personagem assuma o completamente o papel que o enredo sugere. Assim, somos forçados a interpretá-los muito além do que representam os papéis que assumem. Não existem heróis em Leviathan. Há aqueles com boas intenções, mas nenhum personagem é capaz de superar suas fraquezas. Sob estresse, acabam sucumbindo todos, entregando-se ao destino imposto de cima. Antes de ser um justo lutando por seus direitos, Kolya é um alcoólatra violento, e assim permanece independente do valor da causa que defende. O mesmo pode ser dito de todos os personagens. O estado, personificado na figura do prefeito corrupto, é a força que faz mover a vida de todos eles.  Mais que uma afirmação ideológica, a obra de Zvyagintsev um poderoso estudo da natureza humana.

Por Henrique Fanini Leite

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