Legião da Bronha à Vontade

Segunda Crônica por Cid Brasil

Durante os anos 90 a TV Bandeirantes muito acalentou as madrugadas dos adolescentes ao exibir, após a meia noite de sábado para domingo, filmes eróticos. O Cine Privê, apesar da classificação etária e das pompas nas vinhetas, perdia feio no quesito safadeza até mesmo para o próprio intervalo comercial. Bem mais picantes que os próprios filmes exibidos, as chamadas eram recheadas de anúncios de disk-sexos e de casas de swing, onde se chupavam muito peitinhos e os atores pareciam mais uma trupe de acrobatas romenos, devido as posições que conseguiam atingir.

 Mas era o que tínhamos e algumas cenas ali valiam a pena. Até porque era excitante realizar toda uma sequência de rituais para se atingir o nirvana de uma punheta cansada naquilo que praticamente se assemelhava a um ensaio do que viveríamos na vida adulta. Nossas futuras atuações ridículas nas baladas e festinhas, começavam em nossa puberdade ao colocarmos não a melhor roupa, mas sim a mais confortável para o sofá, enquanto nossas lábias eram testadas com os mais velhos na mentira de dizer que só ficaríamos acordados para ver algum filme do Chuck Norris ou do Charles Bronson. Que a bem da verdade, dada a sanguinolência e carnificina da coisa, judiava bem mais de uma cabeça infantil do que uma nádega desnuda.

Acho que o filme mais legal que vi nessa época foi O Monstro, do Roberto Benigni, onde ele interpretava um malandreco que vivia de pequenos furtos e espertezas, mas que um belo dia, é acusado de ser um maníaco sexual só por estar na hora e local errados. Aos doze anos, como alguns devem saber, masturbação ainda é considerado um pecado mortal na cabeça de um pirralho e o medo de meus pais invadirem a sala em busca de um copo d’água e acabarem me flagrando dava um sabor todo especial a coisa, além de um medo bárbaro de, assim como no filme do Benigni, ser taxado de maníaco sexual.

Porém não foi só essa vez que o programador da Bandeirantes me aprontou. Havia vezes em que o canal, talvez para expurgar os próprios pecados de se valer da audiência de um bando de pivetes punheteiros, exibia antes dos pornôs softs, o programa da Legião da Boa Vontade, a famosa LBV, de posse do senhor Paiva Netto (fundador da tal Legião) que fazia questão de mostrar o que realizava com o dinheiro dos doadores e de como era importante nos importarmos uns com os outros.

O infeliz também sempre fazia questão de destrinchar qual era o tema da campanha da fraternidade naquele ano, dizendo algumas obviedades e reforçando certos clichês religiosos. Eu assistia todo o programa da LBV meio desconcertado por xingar aqueles meus semelhantes faceiros com um simples prato de sopa e mingau enquanto eu esperava mais da vida e da madrugada.

Mas, como nem só de prazer vive o homem, Paiva Netto e sua Legião, me ajudaram uma vez a não repetir o último bimestre no colégio em Religião, já que uma das questões da prova pedia que disséssemos quais os malditos (digo, benditos) temas da campanha da fraternidade de 2000. Dignidade humana e paz, ou algo assim.

Claro que é um feito pequeno e ridículo passar numa prova de religião, mas se hoje ajudo a LBV com quantias mensais é mais por rancor do que “amizade aos de boa vontade”. Sempre que o mensageiro telefona para saber se irei doar, faço questão de perguntar, como sempre faço, se o Paiva Netto ainda é vivo e se está bem de saúde. Confirmadas as minhas dúvidas (o homem é um Highlander, ou um vampiro, que sugou a infância de muitos taradinhos como eu) digo que irei doar embora considere Paiva Netto um inimigo intimo.

Obviamente não revelo ao funcionário da casa o motivo de minha ira, já que aprendi da boca do próprio Paiva Netto aquele preceito religioso de dar com uma mão e esconder a outra – ainda que assistisse tudo com uma delas ocupadas – mas é que nunca me recuperei do trauma de quando seu programa institucional era muito longo, de ao invés de ver peitinhos inundando a tela, receber a barra de cores e um som agudo anunciando o fim dos trabalhos diários da emissora após sua fala edificante.

Cid Brasil é escritor, algo entre José Sarney e James Joyce.

2 Comentários

  1. Sérgio Souza fala: Responder

    Olá, Cid Brasil! Gostei muito da sua crônica, como gosto de tudo o que leio de você. Foi uma época quente!… (Rs) Agora, caso me permita, posso entrar com uma participaçãozinha? Na verdade, o fundador da LBV foi Alziro Zarur, que a manteve desde a sua fundação (1950) até o óbito desse seu fundador (1979), ficando Paiva Netto em seu lugar (Wikipédia). Chego até a me lembrar um pouquinho dele. O Zarur tornara-se um mito, mas, com o tempo, foi gerando uma série de desconfianças. Pessoalmente, acho que a IURD e ainda outras “igrejas” copiaram o modelo de marketing dele, ampliando-o e tornando-o mais agressivo, em função das ferramentas midiáticas de que hoje dispõem.

    Um abraço.
    Sérgio

  2. Cid fala: Responder

    Sergio, que retorno massa! Obrigado. Pois é, vacilo meu, mas é que me deixei levar pela nostalgia de minhas madrugas-privês. Abraços e apareça sempre!

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