LAPSUS

Segunda Crônica por Andressa Barichello

Tive pouco contato com meu avô. Quem sabe nas férias, se houvesse dinheiro para viajar – e olhe lá. A história dos motivos para a distância vale um parênteses que de tão extenso arrebenta o sinal gráfico capaz de acomodar detalhes. Nem sei como ele veio pra cá daquela vez. Foi a única. Milagre? Talvez ele já quisesse fazer a viagem – mas o orgulho, mesmo depois de décadas, não autorizava iniciativa própria rumo à cidade escolhida pela filha para viver.

 Como graças a Deus nunca teve caso de morte, acabou que Deus, ele mesmo, tenha parecido bom motivo. Um senhor tão católico deveria testemunhar, ainda que contrariado com a viagem (e mais santo porque contrariado) os nove anos da neta – agora mais abençoados pela primeira comunhão. A história da minha primeira comunhão não é minha história com a igreja; sequer cheguei à crisma. Aquela missa e o gosto da hóstia são a cerimônia – talvez sagrada, talvez pagã – de quando eu e meu avô comungamos.

O corpo e o sangue de Cristo, perdoem a blasfêmia, era ele lá em casa pela primeira vez, no quarto ao lado, na mesa do café, perto das minhas coisas. O pincel de barbear dele sobre a pia, eu tentando adivinhar o que ele faria com a dentadura à noite. Nem importava que “minha filha você tá muito palidazinha, essa cidade muito ruim, essa manteiga de sulista branca demais, essa gente com cara de bicho d´água, esse clima que não favorece crescer com saúde, esse povo que não gera emprego, não tem como o camarada dar certo aqui…”.

O sagrado daquilo era a gente avô e neta. Cordeiro de Deus tirai o pecado do mundo e tende piedade de nós. De manhã a igreja, depois o almoço no restaurante e ele e a velha mãe do dono do restaurante tão simpáticos um com o outro que, nossa!, podiam casar e ele ficar pra sempre aqui. Se o marido dela tinha morrido que nem a vó, por que não?

Por que não, vô? Me diz?

Antes de ir embora levando os mistérios de seu próprio terço, ele mentiu ter esquecido de trazer o presente, o meu presente. Meses antes, ao telefone, não falei brinquedo nem roupa. Era moda relógios de plástico cor-de-rosa bem Paraguai. A Barbie estampada dentro. Cheiro de bala. Um pouco de glitter. Números grandes. Alarme musical. Então pedi um relógio – que relógio, pra mim, era aquele.

Mas quando abri o pacote, a caixa dentro não era papelão, era madeira. Dentro da almofadinha vermelha, enfiada que nem joia, uma pulseira de couro azul. A parte do mecanismo toda dourada. Disfarcei a decepção e nunca usei – ir pra escola com aquilo? Parecia emprestado da mãe. Nunca usei, aliás, relógio algum. O celular chegou depois para dizer as horas…

Mas agora, finalmente, o relógio. Fica bonito no meu pulso, ainda tão magro, pouco mais firme. Um relógio de mulher elegante. Delicado. Vintage. Issoéquérelógio, filha. Combina com meu brinco de pérola, meu pingente de ouro, minha aliança de noiva. Ainda não sou boa em ler números romanos, mas sempre quando confiro as horas reconheço um atraso. Meu avô já sabia – lá – o tempo que nunca teríamos.

Andressa Barichello nasceu em São Paulo e reside em Curitiba. É mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa e co-fundadora do projeto de Coinspiração Cultural Fotoverbe-se.com no qual realiza vivências com artistas. É autora do livro “Crônicas do Cotidiano e outras mais” vencedor do prêmio Alejandro Cabassa pela União Brasileira dos Escritores do Rio de Janeiro, publicado em 2014 pela Scortecci Editora. 

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