Jump

jump

O ar úmido e fresco da manhã parecia limpar os pulmões da fuligem de outrora. Vista do alto do penhasco, a mata perdia-se no horizonte, entrecortada apenas por um rio amarronzado à direita. As partes de cima e de baixo das folhas tinham tonalidades diferentes de verde. Quando o vento batia, movendo os galhos e expondo a parte inferior, a floresta mareava num ondulado bicromático. O farfalhar das folhas parecia silêncio àqueles ouvidos urbanos. Cá e lá, via pássaros emergindo e mergulhando das copas das árvores.

Quem sabe estonteado por aquela beleza, ou simplesmente por medo de encarar os fatos, demorou a lembrar o motivo de estar ali. Não pulou; ninguém pula de um penhasco. Deixou-se ir, como criança que, por brincadeira, deixa o corpo vergar-se para um lado, até a perda do equilíbrio forçar um pé de apoio. Ali, o pé não encontrou chão. Sentiu a surpresa estúpida do óbvio, um certo arrependimento, um o que foi que eu fiz, e sorriu. Chegou a entreter a possibilidade dos galhos abaixo amortecerem a queda. Despencou, face ao chão. No berro ficou o zunido da vida, as intermináveis buzinas, sirenes, apitos e alarmes, o playback infinito da metrópole; os dias úteis. Inspirou uma última vez, olhos sempre abertos, livre.

Mas da liberdade verdadeira só desfrutam os mortos. As amarras nos pés logo se fizeram sentir. O sangue desceu a cabeça, os olhos quase saltando das órbitas. Então parou num instante imponderável, feito reponto de maré, para então subir, a nuca macia, os ombros relaxados. A corda elástica o fazia acelerar em reverso, direto para onde tinha vindo. Ainda desceu e subiu muitas vezes até que o puxassem de volta. Só assim, à beira da morte, é que sabia como sentir-se vivo.

Por Henrique Fanini Leite

2 Comentários

  1. Texto maravilhoso!!! A surpresa do final dá até alegria porque se pensa demais durante a leitura, conjeturando intenções, criticando escolhas, precipitando conclusões! Amei!!

    1. Muito Obrigado, Sarah! Fico muito feliz com seu comentário.

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