Júlia na Praia

Nesse começo de ano, a EMA vai republicar alguns dos textos de maior sucesso do ano passado. Voltaremos a nossa programação normal em breve.


Branquela. Maiô de crochê. Sotaque sulista. É turista, só pode ser. As moças daqui são lambuzadas de óleo e usam cortininhas mínimos. As amigas, igualmente branquelas, tentavam um bronze. Falavam alto, afetadas pelo álcool dos seus drinks coloridos. Estavam de olho em nós. Meu brodinho botou a pilha, puxa assunto cara. Pedi para olharem nossas coisas enquanto dávamos um mergulho, que foi muito rápido por sinal. Rafa disse que o esquema é voltar com o corpo molhado, elas ficam cheia de tesão. Nunca ouvi algo tão gay, mas deu certo. Boquinhas no canudo atentas ao nosso movimento. Vencemos.

Rafa sentou ao lado das duas que fritavam sob o sol de meio dia. Ele já tinha feito sua escolha e eu a minha. Sentei na sombra, do lado da loirinha sardenta e de seios fartos. Perguntei se ela não ia se bronzear por causa do maiô que tinha uma argola no meio da barriga. Ela concordou que não ficaria uma marca bonita, mas disse que preferia ficar na sombra porque já tinha sardas demais. Falei que achava sardas um charme, entre outras coisas. Não é turista, sua família se mudou do interior do Rio Grande do Sul pra Maceió não faz muito tempo. Diz que não vem muito à orla porque mora num condomínio que fica longe, na parte alta da cidade, mas quando vem gosta demais. Já eram cinco da tarde quando seu pai ligou dizendo que estava chegando. Peguei o número do seu celular e antes que fosse tarde, lhe dei um beijo demorado e salgado. Ela saiu segurando suas amigas bêbadas, mas antes de atravessar a rua, olhou para trás. E foi aí que a merda começou.

Depois de dias no whatsapp marcamos no mesmo lugar onde nos conhecemos. Puta dia lindo, sabadaço. Julia se atrasou um pouco, estava animada. Mas mal tiramos nossas roupas e o tempo chumbou. Caiu uma chuva violenta. Tentamos nos proteger debaixo de um quiosque e mesmo assim ficamos ensopados. Tremi de frio e ela veio me dizer que eu não sabia o que era frio de verdade e me encheu os ouvidos com seus contos de inverno. Não aguentei e interrompi. Perguntei se ela não queria ir pro meu apartamento, tomar um banho, relaxar. Quando estávamos no caminho o tempo melhorou subitamente. Ela mudou de ideia e resolveu ficar. Daí ela começou a corizar, soltou mais de uma dúzia de espirros. Um baita resfriado. Achou melhor ligar para o pai, não queria ficar doente de vez. Foi embora vermelha, o nariz prestes a estourar.

O resfriado de Júlia a deixou de molho durante uma semana. Convidei para ir ao cinema, mas ela alegou que não tinha nenhum filme que gostasse em cartaz. Disse que queria sentir a maresia e me ver só de bermuda. Topei, óbvio. Nossas conversas pelo telefone descambaram para uma putaria leve, o que me deixou excitado o suficiente para acreditar que domingo seria o dia. Dessa vez ela não veio de maiô, o que achei divino. Nos sentamos sob a sombra de um coqueiro. Do nosso lado havia uma família inteira, pais, avós e crianças. Estávamos bebendo um mojito atrás do outro e chegamos ao ponto de achar tudo hilário. Riamos das crianças brincando com sargaço, das tias embalsamadas de creme para clarear pelos e do tiozão empanado que não tirava os olhos da moça de fio dental à nossa frente e ajeitava compulsivamente seu calção de banho. Mas tivemos quase um ataque epilético de tanto rir com a velhota que se acocorou e soltou um mijão diante dos nossos olhos. A velha mijava com uma expressão de extrema felicidade, completamente alheia ao nosso riso e aos parentes que a olhavam com ares de repreensão. Quando uma das parentes exclamou um sonoro “ôxe, mas mainha!!!” Júlia não se conteve com o sotaque carregado dela e gargalhou como se não houvesse amanhã.

Eu percebi pela cara do pessoal que aquilo não tinha mais graça, mas Júlia estava tão bêbada que perdeu a noção. A moça do fio dental que também tinha tomado uns gorós a mais, sabe se lá porque, se doeu com o riso de júlia. Levantou com sangue no olho e disse que não aguentava mais turistas idiotas, nos xingou de filhos da puta e o escambal. Júlia se irritou e jogou seu copo na cara revoltada da outra sem tirar o sorriso cínico do rosto. As duas se engalfinharam e foi um show de peitos para fora, uma confusão que formou uma pequena multidão ao redor e somente eu para apartar a briga, o resto do povo só queria saber de filmar a confusão. As duas foram parar no posto policial e foi aí que eu soube que na verdade Júlia era de menor: dezessete anos. Seu pai veio busca-la e me fitou furioso por ter deixado sua filha bêbada, vomitada e com a cara latanhada. Pra piorar, o vídeo com a briga de Júlia viralizou.

Ficamos um tempão sem nos falar, até que ela me deu oi no facebook. Lhe disse que eu poderia ser preso e ela argumentou que em nenhum momento eu havia perguntado sua idade, o que é verdade: apenas deduzi que ela tivesse mais de 18 porque já estava na faculdade e era alta. Ela faria 18 em apenas 2 meses. Marcamos um passeio pela orla à noite. Comemos tapioca, conversamos até o tesão ficar insustentável. Dessa vez não rolaria ir para minha casa porque minha mãe estava recebendo umas amigas. O jeito foi dar uns amassos entre as jangadas, no escuro. Júlia estava com mais vontade do que eu. Abaixou a própria blusa, minha bermuda e me chupou deliciosamente, até que tive a impressão de que estavam nos olhando e puxei muito rápido o zíper da bermuda. De repente eu era Ben Stiller e ela a Cameron Diaz. A risada dela diante da minha cara de dor me fez brochar pra sempre.

Depois disso não nos falamos mais. Júlia já tem 18 anos, ganhou um carro do papai, posta foto de balada. Outro dia a vi  jantando com um cara no maior agarro. Numa pizzaria. Por que porra não fomos à uma pizzaria?

Por Natasha Tinet

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