Joni Mudo

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Apesar da violência cada vez mais pública e dos esforços de mães preocupadas, ainda existe, na grande maioria das cidades brasileiras, o hábito de brincar na rua, sobretudo entre os garotos.

Nisso, não diferem muito de seus pais e avós: os que podem gabam-se dos pelos despontando na virilha e axilas – mostram-nos, inclusive -, disputam quedas de braço, trocam figurinhas, jogam futebol e joguinhos de celular. Às vezes brigam, sem covardias ou golpes baixos. Falam de meninas, de masturbação, narram aventuras tão inocentes quanto mentirosas. Como num campeonato, os menos aptos a essas demonstrações de virilidade se vão um a um e, conforme avança a tarde, mais inapta parece a palavra “brincadeira” para descrever os acontecimentos.

De toda a turma do bairro São Vicente, restavam apenas três garotos. Já era noite, deveriam ter voltado para casa há horas, mas, agora que a bronca era inevitável, tentavam adiar o momento tanto quanto podiam. Fumavam cigarros que Augusto afanara da mãe, dois ou três de cada vez, dia após dia, e que eram mercadoria rara. Gabriel, o mais velho, já com um princípio de bigode e cavanhaque, dessa vez não conseguira comprar cachaça no supermercado, o que era visível pela expressão de desgosto com que levavam as latinhas de cerveja à boca.

Se comportavam como o faria qualquer grupo de crianças brincando de ser adulto. Falavam alto, fumavam até tontear, fingiam estar mais bêbados do que realmente estavam. A luz dos postes tingia a pele de um amarelo cadavérico, o que, combinado com o caminhar errante, lembrava uma versão cômica da madrugada dos mortos.

No meio daquela pavonice, só um observador muito atento notaria o garoto magrelo que caminhava na sombra dos companheiros. Chamava-se Jonathan, mas todos o conheciam como Joni Mudo. Alguns dos garotos da rua realmente acreditavam que Joni era mudo, mas os que estavam ali – seus melhores amigos – sabiam que tinha uma voz potente e suave, do tipo que faz os outros se calarem sem esforço.

Joni não era particularmente bom em nada. Não era o que mais bebia, nem o que mais fumava. Perdia na queda de braço até para os garotos mais novos. Não fazia questão de jogar bola, resignando-se a posição de goleiro na maioria das vezes. Não obstante, a aparente falta de interesse em qualquer uma dessas atividades, combinada com a capacidade de ignorar qualquer tentativa de provocação, rendia-lhe um respeito alcançado apenas pelos meninos mais corajosos – e um lugar em qualquer farra que organizassem.

Pararam na esquina. Gabriel amassou a latinha e jogou num terreno baldio.

– Por que não vamos até a praça? Pode ser que o Seu Fábio nos venda algumas cervejas.

– Não vai vender. Minha mãe foi lá brigar com ele a última vez que me pegou bebendo.

– Porra, Augusto, você dedurou o cara?

– Não. Aquele dia foi você que comprou, no mercado. Nem passamos na praça. Precisa ver a cara do Fábio. Se me ver, vai me dar uma coça.

Até Joni deu risada. Os amigos o abraçaram pelos ombros, sacudindo para lá e para cá como se precisassem do apoio para ficar de pé. O garoto sorriu, mas logo se desvencilhou, assumindo a atitude taciturna de sempre.

– Vamos por dentro do São Valentim, quem sabe encontramos um mercado por lá.

– Augusto, melhor não. Já tá escuro, no São Valentim mora uma galera da pesada.

– E a gente é o quê? Umas bichinhas?

– Uma vez passei por lá e uns meninos me deram um pau. No São Valentim não sabem o que é honra. Dois me seguraram enquanto outro me batia.

– Pois então vamos lá dar o troco. – Falou Joni.

– Se eles vierem para cá, então damos o troco. No bairro deles vamos acabar apanhando.

O silêncio indicou aprovação tácita. Joni deu de ombros, como sempre fazia, e chutou um pedaço do petit pavé que se desprendera da calçada. Gabriel pediu um cigarro a Augusto, que pegou um para si também.

– Mas então fazemos o que?

– Podemos tentar no posto do Mathias. Essa hora já deve ter trocado o turno. Quem sabe agora eles vendam.

– Também vai gente do São Valentim lá. Precisamos dar uma espiada antes de chegar.

– Não sabia que você era tão medroso, Gabriel. – Disse Augusto. – Se não fosse o único capaz de comprar bebida, ninguém ia te respeitar.

Gabriel se aproximou, empertigando-se e inflando o peito. Apesar de mais alto, Augusto era mais fraco. Retribuindo o olhar, recuou alguns passos e tropeçou no meio fio. Caiu de costas no asfalto, mas continuou a encarar Gabriel sem alterar a expressão. O amigo esticou a mão para ajudá-lo a levantar. De pé, Augusto finalmente desviou o olhar, limpando as mãos na calça e tentando esconder na sombra a face avermelhada.

– Posto, então?

Caminharam em silêncio. A lua as vezes escapava das nuvens, iluminando as casinhas coloridas no caminho. De vez em quando, lembravam de fingir o andar trôpego, mas bastaram duas quadras para assumirem um caminhar apressado, quase correndo.

No posto, não havia nenhum cliente. Joni e Augusto esperaram na quadra de baixo enquanto Gabriel comprava as cervejas. Quando o amigo voltou, segurando uma sacola branca e suada, Augusto gritou de felicidade. Haviam seis garrafas long neck, duas para cada.

– Não quis pegar mais, achei que a moça fosse desconfiar.

Atravessaram a rua. Na esquina, acenderam outro cigarro e começaram a beber.

– E a Bianca, Augusto? Ainda tá gostando dela?

– Me deu o fora, acredita?

– Que desgraçada…

Mas evidentemente Gabriel parara de prestar atenção na conversa. Olhava para o posto.

– O que foi?

– Aquele guri, tão vendo? – Apontou – Foi um dos que me segurou.

– Será que não nos viu aqui?

– Vamos pegá-lo quando sair do posto. Provavelmente vai pegar a direção do bairro deles. A gente desce essa rua, vira a direita, anda duas quadras e espera na esquina.

Assim o fizeram. O menino chamava-se Milton. Era mais novo que os três e usava um boné grande demais. Praticamente trombou nos meninos e, quando se viu cercado, levantou instintivamente as mãos.

– Lembra de mim, Miltinho?

O garoto não respondeu. Passado o susto, assumiu uma posição defensiva, os braços junto ao corpo.

– O que foi? Naquele dia você não estava tão calado. Que eu me lembre você fala até demais.

– Vá se foder, Gabriel. Você foi lá pegar a mina do Roberto. Mereceu apanhar.

– Então que o Roberto viesse brigar sozinho. O que você e o Nunes tinham a ver com isso?

O garoto olhou para os lados, recuando alguns passos.

– Você tem sorte, pirralho, porque eu não sou como vocês. Não bato em criança, muito menos assim na covardia.

– A gente vai deixar ele ir? – Perguntou Augusto.

– Vai – Disse Gabriel. – Você quer ir embora, Miltinho?

O garoto sabia que não sairia sem um olho roxo. Novamente olhou ao redor, mas percebendo a impossibilidade de fuga, encarou Gabriel em silêncio.

– Ei, Joni, esse aqui tá que nem você: não fala nada.

Riram. Gabriel deu um cutucão no ombro menino.

– A gente vai deixar você ir embora, Miltinho, mas antes você vai beijar meu pau.

– Virou veado agora, Gabriel?

– Não. Você que vai virar. Ou senão vai perder os dentes.

– Pois então me bata. Não vou beijar nada.

Gabriel apertou os lábios, como quem diz “já que insiste”, e desferiu um soco cruzado. O garoto caiu e ficou no chão, sangrando.

– Levantem ele.

Assim o fizeram, mantendo-o de joelhos.

– E agora, vai beijar?

O garoto permaneceu em silêncio, olhando fixamente para Gabriel.

– Gabriel, deixa ele, é covardia bater nele assim.

– Joni, não quer aproveitar e mostrar que é homem? Bate nele.

Joni não respondeu.

– Vai, não quer? São uns maricas mesmo…

Soltaram-no, mas assim que fez menção de levantar, Joni atingiu-lhe com a garrafa de cerveja, que se espatifou. O menino caiu de lado, desacordado. Houve silêncio, só preenchido pelo ruído dos insetos. Como Miltinho não se mexia, Joni se agachou, virou o corpo e se ajoelhou, o garoto entre as pernas. Deu alguns tapas no rosto do menino, tentando acordá-lo. Esperou, deu mais alguns tapas, então sorriu e deu de ombros. Beliscou-lhe a bochecha carinhosamente, levantou sua camisa e observou, certa candura no olhar e no sorriso. Com dois dedos, percorreu o tronco do garoto, e, na mesma linha que desenhara, fez um corte do pescoço ao umbigo com o toco da garrafa. Em alguns pontos, foi necessário um movimento de serra para rasgar a pele. Procedia com calma, o corte perfeitamente reto. O sangue escuro, praticamente preto sob a penumbra, fez uma pequena piscina no umbigo, de onde escorria pela barriga. Da mesma maneira, Joni desenhou com os dedos uma linha perpendicular na altura dos mamilos, formando uma cruz. Cortou em seguida com a garrafa. Parou e observou. Riu. Molhou os dedos com o sangue do umbigo e chupou, depois desenhou com sangue uma série de linhas irradiando do centro da cruz. Dessa vez não cortou. Pintou também o próprio rosto, como um índio. Tentou novamente acordar o garoto, sem sucesso, e então levantou. Depois de dar alguns chutes no corpo, pisou em cheio em sua face, mexendo o pé, como quem mata uma barata.

– Augusto, me dá um cigarro, vamos queimar esse rostinho.

– Augusto?

Assim que olhou para onde deveriam estar os amigos, foi atingido por um grande pedaço de pau. Caiu em cima de Miltinho, o rosto no centro da cruz que desenhara. Em silêncio, Augusto e Gabriel fumaram outro cigarro e terminaram as cervejas, observando os dois garotos abraçados, mortos.

Por Henrique Fanini Leite

1 Comentário

  1. Macabro! Mas muito bom!!!!!

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