Inside Llewyn Davis

No imaginário popular, a vida de um músico é associada a festas, diversão, romances passageiros, drogas. Se criam uma grande música, não é por anos de esforço, mas por alguma inspiração mágica no meio de uma altercação qualquer. Os próprios artistas – sobretudo as estrelas do Rock – alimentam (e lucram) com o mito. Filmes sobre músicos, reais ou fictícios, tendem a seguir essas linhas, por vezes retratando também pobreza ou problemas com vício. O que jamais é retratado é a vida da maioria: normal, frustrante, sem grandes sucessos nem inspirações. Inside Llewyn Davis, obra em tons menores dos irmãos Coen, tem lá seu grau de exagero, mas ao menos traz um tema raríssimo para este tipo de produção: o fracasso. O filme venceu o Grand Prix em Cannes, foi aclamado pela crítica, mas praticamente ignorado nos Oscar.

Llewyn Davis é um músico de Folk, batalhando a vida em Nova Iorque no início dos anos sessenta. O personagem foi inspirado no artista real Dave Van Ronk, mas difere dele tanto em personalidade quando em história de vida. A obra é um recorte de um período difícil na vida de um músico com certo talento, mas talvez inflexível demais para se tornar popular.

Comparado a outros filmes dos Coen, Inside Llewyn Davis é muito menos exuberante. A obra traz uma mistura de melancolia com comédia, no que em muito contribui o cenário urbano de outono/inverno, com suas cores acinzentadas. Diferente da maioria das produções do gênero, não há uma grande virada, a carreira não decola e jamais irá. O motivo é simples: Llewyn simplesmente não tem o que é preciso. Ele próprio já sabe disso, mas não encontra escapatória. Feito Sísifo, Llewyn continua tocando suas músicas, procurando lançar sua carreira, vendo as oportunidades virem e irem, fugazes. Resignado, segue seu ofício, sem riqueza e sem fama, glorioso como qualquer mortal.

Por Henrique Fanini Leite

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