Ingrid Jonker

Em 19 de setembro de 1933, nascia, na cidade de Douglas, África do Sul, a escritora Ingrid Jonker.

Logo após seu nascimento, seus pais, Abraham Jonker e Beatrice Cilliers, separaram-se e ela, junto à mãe e irmã foram viver na casa dos avós maternos; pouco depois, todos mudaram-se para uma fazenda perto da Cidade do Cabo e cinco anos mais tarde, o avô de Ingrid faleceu, deixando-as com graves problemas financeiros. Ela começou a escrever com apenas seis anos de idade.

Em 1943, sofrendo de depressão, Beatrice cometeu suicídio. Ingrid e a irmã foram enviadas para estudar em um colégio na Cidade do Cabo, onde ela começou a escrever na revista da escola. Aos treze anos, concluiu uma seleção de poemas que, apesar de não ter sido publicada, despertou o interesse de editoras.

Após deixar a escola, Ingrid e a irmã voltaram a morar com o pai, sua terceira esposa e os filhos destes, no entanto, eram tratadas como estranhas na casa e os conflitos eram frequentes. Abraham, também escritor e editor, era membro do Partido Nacionalista no Parlamento, responsável pela implantação do Apartheid em 1948. Nessa época, foi nomeado ainda censor artístico; assim, além de desprezar, frequentemente censurava o trabalho de Ingrid. Contrária à política racista, entrou em brigas públicas com o pai e ele chegou a afirmar, na imprensa, que ela não era sua filha.

Em 1956, Ingrid publicou seu primeiro livro, intitulado “Ontvlugting”, que significa “fuga” em Africâner, idioma que ela utiliza em toda sua obra. Falada principalmente na África do Sul, é uma língua que reflete a própria história daquele país. De origem germânica, trata-se de uma mistura de holandês (especificamente aquele falado em Amsterdam no século XVII) e adaptação de palavras, expressões e conjugações de outras línguas como francês, alemão, indonésio, malaio, português, khoi e san, em detrimento dos idiomas locais. Alçada a língua oficial, era falada principalmente pelas pessoas brancas e foi instrumento de opressão politica e cultural.

Ainda em 56, Ingrid casou-se com Pieter Venter, mudaram-se para Johannesburg e sua filha nasceu em 1957; a união durou três anos e após separação, ela retornou para a Cidade do Cabo. Neste período, relacionou-se com os escritores Jack Cope e Andre Brinck, ficou grávida, mas fez um aborto, proibido por lei no país. Este fato, aliado às constantes brigas com o pai levaram-na à internação em hospital psiquiátrico, o mesmo onde sua mãe havia morrido.

Em 21 de março de 1960, o Congresso Pan-Africano realizou um protesto no bairro de Sharpeville, em Johannesburg, contra a Lei do Passe, que obrigava pessoas negras a portarem um documento onde constavam os locais que poderiam ir, apenas uma das muitas restrições do Apartheid. Em uma caminhada pacífica, 20 mil pessoas marcharam até a intervenção da polícia que, com tiros de metralhadora, matou 69 pessoas naquele dia. A importância deste fato foi reconhecida em 1969, quando a ONU instituiu 21 de março como o Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial.

Ingrid Jonker foi testemunha deste evento e, ao presenciar o assassinato de uma criança, escreveu “Die kind (wat doodgeskiet is deur soldate by Nyanga)”, “A criança (que foi morta por um soldado de Nyanga)”. Naquele período, o parlamento permitia que ministros fossem diretores de editoras e foi determinado que Ingrid tirasse o poema de seu próximo livro “Rook en oker” (“Fumaça e Ocre”), caso quisesse publicá-lo, o que ela negou, daí o atraso no lançamento da obra, que saiu apenas em 1963. O título foi reduzido para “A criança” e colocado entre poesias com temática infantil que Ingrid havia escrito para sua filha. Ainda assim, a obra ganhou o prêmio Afrikaanse Pers-Boekhandel. Pouco depois, Ingrid começou a fazer parte de um grupo de artistas chamado Sestingers, contrários ao Apartheid.

Em 1965, Ingrid cometeu suicídio ao entrar no mar na praia de Three Anchor Bay, na Cidade do Cabo. Jack Cope reuniu seus trabalhos não publicados e em 1966, foi lançado “Katelson”. No mesmo ano de sua morte, amigos da autora criaram o “Ingrid Jonker Prize”, prêmio a autores estreantes tanto em africâner quanto inglês.

A obra de Ingrid foi publicada em diversos países e seus poemas foram musicados por alguns artistas. No Brasil, não há uma obra sequer traduzida da autora; do mesmo modo, os documentários disponíveis não são encontrados com legendas em português. Para saber um pouco mais sobre Ingrid, é possível assistir ao filme “Borboletas Negras”, de 2011, da diretora Paula van der Oest.

O fato de Ingrid escrever em Africâner pode causar certo estranhamento, visto ela ser contra o Apartheid. De fato, esta questão tornou-se tão importante que em 1976, o governo decidiu impor o ensino desta língua nas escolas em que os negros estudavam, o que foi o estopim para um protesto ocorrido em 16 de junho daquele e acabou com a morte de aproximadamente 600 pessoas, incluindo crianças e adolescentes, no que ficou conhecido como Revolta de Soweto. No entanto, podemos pensar que utilizá-la era um modo de atingir aquela sociedade justamente com algo que lhe era caro; escrevendo sobre sentimentos e comportamentos que não eram bem-vistos ou denunciando o racismo, ela subverte a lógica de uma língua. Talvez assim pensasse também Nelson Mandela, ao ler “A criança (que foi morta por um soldado de Nyanga)” em 24 de maio de 1994, durante a abertura do primeiro parlamento democrático da África do Sul.

 

The child is not dead

The child lifts his fists against his mother

Who shouts Afrika ! shouts the breath

Of freedom and the veld

In the locations of the cordoned heart

The child lifts his fists against his father

in the march of the generations

who shouts Afrika ! shout the breath

of righteousness and blood

in the streets of his embattled pride

The child is not dead

not at Langa nor at Nyanga

not at Orlando nor at Sharpeville

nor at the police station at Philippi

where he lies with a bullet through his brain

The child is the dark shadow of the soldiers

on guard with rifles Saracens and batons

the child is present at all assemblies and law-givings

the child peers through the windows of houses and into the hearts of mothers

this child who just wanted to play in the sun at Nyanga is everywhere

the child grown to a man treks through all Africa

the child grown into a giant journeys through the whole world

Without a pass.

A criança não está morta!

A criança levanta os punhos junto à sua mãe.

Que grita África ! grita o sopro

Da liberdade e da savana

Nos locais de corações isolados

A criança levanta os punhos junto ao seu pai,

na marcha das gerações

que grita África! grita o sopro

da justiça e do sangue

nas ruas de seu aguerrido orgulho

A criança não está morta

não em Langa nem em Nyanga

não em Orlando nem em Sharpeville

nem na delegacia de polícia em Philippi,

onde jaz com uma bala no cérebro.

A criança é a sombra escura dos soldados

em prontidão com fuzis sarracenos e cassetetes

a criança está presente em todas as assembleias e tribunais

a criança espreita nas janelas das casas e nos corações das mães

a criança que apenas queria brincar sob o sol de Nyanga, está em todo lugar

a criança tornou-se um homem que marcha por toda a África

a criança tornou-se uma grande jornada através do mundo todo

Sem um passe.

 

Mariana B. Cavariani

 

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