Hui Ying Confecções Ltda.

Segunda Crônica por Andressa Barichello

Existem muitas lojas de chineses espalhadas pela cidade. E elas vendem de tudo. Não há quase nada de que você possa precisar e que não possa ser encontrado lá. Roupas, materiais artísticos, utilidades domésticas, brinquedos, cosméticos, doces, materiais de informática, de escritório e de limpeza. Mas tudo isso não é novidade; nem é o mais importante. O mais importante, desconfio, é essas lojas estarem abertas todos os dias e em todos os horários, salvo alta madrugada ou motivo de luto.

Quando digo que o mais importante é o horário de funcionamento estendido, não falo da comodidade que é qualquer um poder socorrer-se de miudezas nas mais variadas horas ou ter perto de casa um lugar onde se vende de tudo a preços módicos. Racionalmente, sou é muito contra a jornada absurda, com tão pouco descanso e lazer, praticada nesses estabelecimentos.

É sempre triste a ideia de que a rotina de tantos homens e mulheres é passar manhãs, tardes e noites atrás de um balcão, os dedos a digitar com tanta agilidade os números de identificação fiscal que preenchem campos de um sistema operacional todinho apresentado em logogramas chineses.

Brincos. Garrafa Térmica. Avental. Enfeite de mesa. Galocha. Lenço. Folha de E.V.A. Convite de aniversário. Vai desejar saco?

Já tentei elogiar a beleza dos caracteres e pedir à atendente que contasse um pouco mais sobre eles, mas muitos chineses vivem numa espécie de exílio, limitando-se a devolver o troco correto, assentir com a cabeça e sorrir como resposta às perguntas que não compreendem mas lhe parecem simpáticas. Não há muito a dizer senão elogiar a variedade da loja ou, com os dedos imitando chuva, tentar esclarecer qual a capa mais resistente.

Hui Ying, a chinesa que dá nome à sua loja, vive aqui há cinco anos. Venceu a barreira da língua e embora nem sempre compreenda o que é dito, vive ao telefone com seus fornecedores locais. Da primeira vez em que a vi num desses monólogos alucinados, pensei que falasse sozinha. Ao interrompê-la descobri que ela usa – e já tem à venda na loja – um ponto auditivo portátil por meio do qual é possível conversar distante do telefone.

Volto ao que é o mais importante: o horário de funcionamento das lojas.

Às vezes chove muito. É domingo. A rua está deserta. Não se ouvem crianças. Não há idosos nas janelas. Nem carros estacionados. Nem folhas nas árvores, nem vento que empurre as folhas caídas num voo breve. A vitrine da pastelaria está vazia. As luzes estão apagadas. Manequins parecem manequins e não a visão da gente mesmo vestindo aquela roupa e indo a um jantar. Grades abaixadas. Lixeiras até a tampa. Com as geladeiras dos mercados, que precisam manter-se ligadas, quase há esperança; mas basta chegar mais perto para perceber: não há ninguém nos caixas e as flores que ninguém quis levar já parecem murchas de sede. Os ônibus não passam. Os cães tiveram de usar o fraldão. O semáforo de pedestres está vermelho mas haveria tempo de cruzar a faixa dançando.

Em dias assim estranhos, quando a caminhada é tomada de alguma hesitação, um simples passo adiante pode nos surpreender. Incrustada debaixo da marquise, existe alguma coisa aberta na cidade. Existem pessoas a compartilhar esse aqui e agora. As luzes piscam, os vidros da vitrine ofuscam e detrás deles uma decoração temática é fresca, atualizada agora à Páscoa e, talvez em breve, ao Dia das Mães. Gostaria de dizer a Hui Ying que a sua jornada, com o perdão do meu egoísmo, é um exercício de generosidade com os habitantes do bairro.

As músicas mais tocadas do momento nos convidam a entrar. A lembrança de que precisamos de um pequeno conjunto de agulha e linha ou de um coador ou de um adaptador de tomada é suficiente para nos fazer entrar e olhar cada prateleira, até a destinada aos animais de estimação que não temos. Não levaremos nada, sabemos, mas não custa nada verificar se tem.

Às vezes, entre montes de plástico, pilhas AA e apliques de cabelo, encontro a singela lembrança de que a vida continua.

Andressa Barichello nasceu em São Paulo. É mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa e co-fundadora do projeto de Coinspiração Cultural Fotoverbe-se.com no qual realiza vivências com artistas. É autora do livro “Crônicas do Cotidiano e outras mais” vencedor do prêmio Alejandro Cabassa pela União Brasileira dos Escritores do Rio de Janeiro, publicado em 2014 pela Scortecci Editora.

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