HOMO INTERLOCUS I

A minha vida:

Tento escrevê-la todos os dias;

Com todos os pontos,

Com todas as vírgulas.

A minha voz:

Um sopro na corneta;

Um chumaço de tinta,

Comprimido em uma caneta.

Eu clico,

Eu existo.

Caligrafia:

E então, compreendida.

Mas sem o outro,

Não há eu.

E sem o eu,

Não há outro.

Então o meu tronco

E o meu robusto arroto,

Se calam, e refletem:

“olha o outro!”

O meu silêncio:

Aquela caneta,

Aquele arroto,

Não são mais meus. São do outro.

Bastou um clique,

Bastou um soco,

E meu esôfago

Ficou oco.

Um pasmo suspiro,

Um leve gemido,

Me revelam:

Agora sou olhos e ouvidos.

Me sirvo das lentes

E dos decibéis

Pra me esquecer…

 

“Quem tu és?”

 

Nascida no dia 11 de Setembro de 1995, Bárbara Piazza é uma estrangeira terrestre que bate as asas e levanta vôo, queima-se vez ou outra e se inunda de qualquer matéria que extrapole a força gravitacional. Diletante, militante, psicóloga e escritora nas horas vagas, acredita que só a antropofagia nos une e que um dia ela será documentarista dos instantes.

Arte: Paul Newman, The Mirror Man, 2011 (detalhe)

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