Helena Ortiz

Talvez a maior dificuldade de se escrever sobre um autor “contemporâneo” seja nosso eterno saudosismo. Este estranho hábito de louvar apenas aqueles que já estão mortos. Entregar tonéis transbordando de elogios, quando o donatário não tem mais estômago. Nem boca, nem paladar – muito menos vida. De que adianta receber um troféu cuja data é a mesma da sua lápide no cemitério?

Pois escrevo sobre uma dupla felicidade: Helena é filha de dois mundos: o Brasil e o interior do Rio Grande do Sul. Nasceu em Pelotas, em 1947, e se mudou para o Rio de Janeiro em 1969, como todo bom gaúcho o faz, pelo menos uma vez em sua vida. Retornou à Pelotas em 1974, quando começou a colaborar como colunista do jornal Gazeta Pelotense, no qual publicou seus primeiros poemas.

Em Porto Alegre, foi editora da Rede Brasil Sul e colunista do jornal sindical da ALRGS. Frequentou a Oficina Literária ministrada pelo escritor Luiz Antônio de Assis Brasil, na PUC-RS, que a levou a publicar seus primeiros contos. Em 1995 publicou o seu primeiro livro de poemas, “Pedaços de mim”, em homenagem à sua filha, Alice. Em seguida, publicou também “Margaridas” e “Azul e Sem Sapatos” em 1997; “Em Par”, em 2001; e “Sol Sobre o Dilúvio” em 2005. Em 2008 e 2009, escreveu o livro “Baseado em quê?”, obra composta de dois volumes, que trata, dentre outras coisas, da legalização do consumo da maconha.

Entre 1999 e 2005, Helena dirigiu o projeto Panorama da Palavra, uma mostra semanal de poesia. O projeto, criado por ela mesma, deu origem a um jornal homônimo e também à Editora da Palavra, seu braço editorial. Helena ainda manteve outro blog, o Integrada e Marginal.

Quanto à poesia, um dos traços centrais, onipresente na obra de Helena, é o cotidiano. Ao longo de seus versos, o leitor sente-se transportado para uma aconchegante sala de estar, numa daquelas típicas casas de madeira que podemos encontrar em São Francisco de Paula, com uma lareira crepitante em um dia invernal; ou ainda em uma grande e velha mesa de carvalho, rodeado de bons amigos e da família que mora na mesma vizinhança. Os versos, sem floreios, são entregues de maneira sucinta e avessos a devaneios. O leitor consegue perceber que seus poemas fazem referência a algum fato ordinário, muito embora, diversas vezes, não consigam precisar exatamente do que se trata. Talvez essa mesma indefinição de contexto seja o que torna os seus. 

 

Justiça

o homem roubou umas latas de atum
e um litro de óleo

foi preso e condenado a um ano
não bastasse
ser o homem que necessita roubar
umas latas de atum
e um litro de óleo

 

Decisão 

Sozinha e abandonada.
Não, nem tanto. Não está mais sozinha.
Carrega na barriga um quase bebê.
Sofrerá menos do que poderia, o pobrezinho,
pensa a mãe pária,
filha de pátria madrasta.
Soa duro, soa triste, depois da grande ilusão.
O amor foi embora sem culpa
e nem estendeu a mão
Haverá, para cada uma, um porto que acolha,
na solidão absoluta,
a dor do aborto?

 

Um Pouco De Guerra

É preciso passar por uma guerra
recolher os mortos
revolver as ruínas

É preciso correr – abandonar os cadáveres
e seguir
(vivendo?)

Na melhor das hipóteses
racionamento.
e água na boca

Talvez fossemos mais cuidadosos
com as coisas que apodrecem
na geladeira

 

Sem Capacete

o que pode fazer um idiota
em cima de uma motocicleta
acelerar sem parar
assassinando o silêncio da mata?

assassinar, acelerar, assassinar
acelerar, assassinar, acelerar

Análise

Neste mês, lhes trago quatro poemas. Cada um, complementar, mas dono de si mesmo. Um poema para cada mês de desgoverno. Um parágrafo para cada poema.

O esfacelamento daquilo que significa Justiça – a dama vendada não mais vendada está; agora espia, pelo canto do olho, o lado que quer favorecer. Com efeito, a miséria, a necessidade, e o perdão inexistente, saltam aos olhos neste que é o primeiro poema: “Justiça”. Em poucos versos, lidamos com a morte da compreensão, e com o fato de que a justiça, do título, está sob as rédeas de uma personagem que nos escapa aos olhos. Um grandioso mecanismo criado para defender as vontades de um ser supostamente superior, que manipula a tudo e a todos com mãos invisíveis. Para os que são fracos de coração, esse tirano passará desapercebido, e a culpa cairá, inevitavelmente, no colo do cidadão que só queria “umas latas de atum e um litro de óleo”.

Na querida e familiar sociedade dos homens para os homens, o poema “Decisão” aparece como um leve suspiro dos oprimidos; aquela pequena aluna que, em uma sala de aula lotada, levanta a sua mão para tentar responder à pergunta de seu professor, mas que, sob o barulho da classe, é esquecida. Às mulheres, são vendidas ilusões de que não estão sozinhas na gravidez, pois “carrega na barriga um quase bebê” e, afinal, como poderia saber que sua pátria não é mãe, mas sim madrasta? A verdade é que seus rostos são tapados com panos, e apenas o seu sexo é amado e sacro. Muitas, convencidas de que esse amor é para com elas, sofrem uma dura e triste desilusão. O homem que evidentemente a abandonará, acaba de entrar para o famoso cortejo dos falsos moralistas: a obrigaram a ter a criança; agora, desejam trancafiar essa mesma criança em calabouços superlotados (também conhecidos como A Solução para Todos os Problemas). Primeiro, lhe roubam o amor de mulher; depois, lhe roubam o amor de mãe. Com efeito, nesta que é a solidão mais absoluta que um ser humano ainda é obrigado a suportar, existirá alguém capaz de lhe dar a mão na única decisão que pode tomar?

Quiçá, como o título sugere, sejamos exatamente como aquele jovem incauto que já encontramos em algum momento de nossas vidas: aprendemos apenas com o sofrimento. Com efeito, existe uma crescente falta de humanidade nas agressões que são evidenciadas semanalmente nos noticiários. Demandam a violência sem conhecer o seu preço. Vibram com a barbárie e homenageiam o brutal com tamanha irresponsabilidade que, secretamente, penso ter sido o único a conseguir fugir da caverna; onde todos ainda seguem acorrentados e saciados com sombras da realidade. Se conhecêssemos o sabor amargo que cada gota de sangue tem, quem sabe teríamos um pouco mais de cautela ao bradar por shakes de armas e de penas de morte.

Por fim, Helena nos dá seu último aviso: um idiota em mãos de grandes brinquedos, consegue fazer grandes estragos.

Nota – Envelhecer é tabu. É assunto empurrado para os cantos empoeirados ou para debaixo dos tapetes-persas, e que ninguém de fato se regozija em discutir. O obituário, não à toa, fica sempre no fim das folhas de jornal, porque nenhum editor espera que alguém, de fato, chegue às últimas páginas do jornal. Pessoalmente, envelhecer é uma série de perdas. Com efeito, entenda que perdas são diferentes de derrotas, já que a medida da vida está longe de ser entre vitoriosos e perdedores. Com isso, penso que as piores perdas são aquelas sobre as quais evitamos falar. A perda da beleza (pode-se argumentar que se ganham outras belezas), a perda dos sentidos, a perda do controle de suas funções corporais, a perda da memória, a perda da independência, a perda de um propósito, a perda da esperança, a perda de si mesmo. Tudo pode, potencialmente, embrenhar-se dentro de nossas vidas, e é o que chamamos de envelhecimento. No dia 10 de fevereiro de 2019, Helena perdeu sua vida. Mas, tenho certeza, ganhou a eternidade.

Por Lucas Morgenstern

1 Comentário

  1. Armando Sérgio de Souza fala: Responder

    Foi ótimo conhecer esta Mulher de Letras.

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