Graça

Dona Graaça. Esse jeito esticado ficava na cabeça depois que ela ia embora.

Sempre foi Graça. De repente era Dona Graça, e as pessoas toda hora perguntavam se ela estava cansada, se o saco de arroz não era muito pesado, quer que eu carregue, sei lá o quê. Como eles achavam que ele tinha parado na prateleira? Menos Pilé. Aliás, da onde isso, que ela começou a chamar ele de Pilé, que nem todo o resto. No começo não era assim, logo que casaram era nome de verdade, era Antônio. Tentou Tonho, mas o Pilé odiou. Tonho era apelido de coió! Venceu Pilé. Achava feio demais, quando era moça, ser Mulher do Pilé. Paciência. A menina chegava todos os dias por volta das 11h. Bom era quando passava às 12h, que daí os dois estavam almoçando ali no cantinho e Graça podia fazer que não viu. Se bem que era bom também quando entrava, dava uma alegrada. A menina abraçava ela, abraçava o Pilé. Era tudo a senhora, o senhor, com licença, educadinha. No começo ainda tentava vender alguma coisinha pra menina. Veio pedindo farinha de tapioca, não sei o que lá. Não tem, não, mas pega essa maçã, filha, tá baratinha. Não, não. Tá bom, mas uma só. Quanto? Ah, tá bom. Uma só. Obrigada. Do jeito que saiu, achou que não ia voltar mais. Mas voltou. Sempre naquela hora, daquele jeitinho meio molenga, que não sabe bem porque veio. Mas tá bom, entra sim, filha, abraça. O Pilé gosta, outro dia mostrou como faz o arroz com brócolis dele. Tem dia que tá de mau humor, aí faz que nem vê a menina, daí fica ela lá, fazendo sala até a coisinha ir embora. Mas ela volta, volta, volta. É boa a companhia. Falar de umas coisas diferentes, ela com o velho não dá nem pra contar as novidades da venda ou da casa. Se ela tá na venda, ele tá na venda. Se ela tá em casa, ele tá em casa. Mas às vezes a menina fica demais, olhando as coisas, não leva nada. Nem precisa levar, é queridinha ela, mas aí passa do tempo e fica naquele vai não vai. Aí oferece umas balinhas e ela geralmente vai embora, tem que estudar, sim, sim, mas que bom que vocês estão bem. Eu volto, hein. Tá bom. Beijo. Beijo. Volta, sim, menina! Fala meio escapado. Costume.

A placa era bonita demais.

Seja feliz, te aguardo. Pilé.

Entrou, mas podia não ter entrado, só olhado. Era um dia bom, e de quem será essa placa, que combinava tanto com aquele sol e com seu estado de espírito. Com licença. Era ele seu Pilé? Ooi, tudo bem? Falava sempre desse jeito com idosos, tudo muito correto, mas também com uma entonação meio infantil. Quando via já estava fazendo. Com o dr. Marcos também era assim. Adquiria magicamente um sotaque levemente alemão, como o da sua avó. Não que Dona Graça e Seu Pilé falassem corretamente o tempo todo, nem eram crianças pra ela esticar as vogais daquele jeito. Pelo contrário, às vezes Dona Graça falava com uma violência que assustava. Que nem quando ela falou dos jovens doentes dessa cidade, que queimam o corpo. Burros e idiotas. Demorou pra entender que eram as tatuagens que incomodavam. Demorou tanto que ficou estranho contar depois que ela mesma tinha uma. Melhor nem comentar. Só que agora era sempre blusa comprida, ou pelo menos uma jaquetinha, colocada momentos antes de passar pela porta da vendinha. Mas agora que começou não podia parar. Foi tudo assim. Entrou por causa da placa, aí a senhora já engatou uma conversa. Sua vó também era desse jeito. Seu Pilé chegou com o copinho, gosta de vinho? Gostava. O senhor mesmo que faz? Colônia? Que bacana. Hmm, muito gostoso. Quanto? Puxa, obrigada, que gentil. Volto, sim, vou falar pros amigos, sim. Pode deixar. Não falou pra amigo nenhum, mas depois de ganhar vinho, balinha, ser tratada com tanto carinho, tinha que voltar. Pelo menos dar um abracinho. Dona Graça ficava puxando assunto, mostrando cada item da loja, mas ela que não ia levar coisa toda vez que passasse ali, e aí pra arranjar assunto era um sufoco. Uma vez não teve jeito, Dona Graça, tadinha, ficava falando que tinha umas maçãs lindas, que era pra levar. Eram umas maçãs bem velhas. Aah, oolha que liindas, obrigaada, Dona Graaça. Levou, né. O duro é que passava ali todos os dias. Era na quadra entre o ponto e a faculdade. Bom era quando se atrasava, que aí podia só acenar. Ou quando passava e já era hora do almoço deles. Mas passava sempre olhando, para caso eles a vissem, dar uma acenadinha educada. Mas dali do cantinho eles não enxergavam, não.

Por Jasmin Endo Tran

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