Glossofobia

Glossofobia

Em toda jerarquia da parvoíce, sou apenas mais um destes citadinos neuróticos. Porém, variavelmente economizo assuntos para baldar minhas lágrimas e lamúrias em cada esquina. Embora permeado pela baixeza moral do comportamento humano, não alcanço o ideário almejado por qualquer indivíduo introduzido na arte da eloquência.

Acredito que a miopia impede-me de encontrar os desenlaces para as aflições que manifesto. Angustiado, aproximo os meus óculos. Sou incapaz de empregar uma máscara aprazível enquanto percorro as masmorras da memória em busca de palavras para iniciar o discurso para uma conferência de funestos ouvintes entediados da poeirenta Universidade.

O silêncio sepulcral despedaçou-se quando a primeira frase proferida preencheu o recinto com rinchavelhada. Sem demora, uma sequidão tomou conta da garganta. A todo custo minha língua vasculhava algum canto úmido. Foi quando o esquálido corpo entrou em estado de trépido. Logo, as descontroladas mãos sacudiam a rasurada papeleta com os tópicos a serem abordados naquela fatídica palestra.

Apesar de todos os esforços para manter a calma, distingui os olhares de desprezo a minha patética pessoa. Meus pulmões se encheram de ar, o ritmo cardíaco acelerou e a visão enturvou. Fiz uma pausa nos murmúrios monossilábicos para reorganizar os pensamentos que se esvaiam a cada gorgolão de água. A espantosa dificuldade para deglutir, defronte aquela vigilância ociosa à espreita de quaisquer argumentos que pudessem fazer oposição, era potencializada pelas gargantas destoantes e ondas de calor.

Despersonificado e paralisado defronte os espectadores, tossegosos e apalermados reclinados sobre os seus contraídos esfíncteres, a sudorese emergiu por todos os poros. Gotículas de suor escorriam pela face dormente e ruborizada, embaçando os meus abatidos olhos pregados no assoalho. A réstia de uma mente estrumeira revirava os vocábulos aleatoriamente, preenchida de nada. Semelhante a uma concha oca.

Tropegamente coloquei-me a frente do púlpito. O fragor provocado a cada pigarreada rompeu o muco fixado na garganta. Dentre os gorgolejos, a purulência jorrou das mais obscuras cavidades corpóreas. Como um parasita desperto, o pus amarelado oriundo da megametrópole constituída pelos seus indivíduos infecciosos, alimentou-se durante muitos anos da minha distorcida realidade.

Metamorfoseado num fluido viscoso e nauseabundo, não distingui mais as grotescas peculiaridades entre o vadio embriagado, o tísico imundo, o estudante repetente, o empresário velhaco, o político corrompido e toda a malta sincrética do rebanho servil, negligente e mimetizado que aos magotes ocupam as vielas do monstro urbano. Um sorriso coagulou no semblante. Prontamente, iniciei o discurso.


Nelson Rocha Neto nasceu em Florianópolis, Santa Catarina, em 1981. É graduado em História e especialista em História Cultural. Publicou o livro Os reis de toda a gentalha: os costumes e a organização social dos bucaneiros na Idade Moderna, pelo Clube de Autores. Participou de coletâneas literárias pela Andross Editora e Editora Costelas Felinas.

2 Comentários

  1. Juliana Mendes sa fala: Responder

    Oia !!!
    Me identifiquei

  2. Elieder fala: Responder

    Sent-me a personagem.

Gostou? Deixe seu comentário!