Geração Y

Sentavam-se frente à frente no café do museu. Ela tinha os cabelos curtos verde metálico, vestia uma jeans azul sem rasgos e uma camiseta listrada com a foto dum cachorrinho. No braço esquerdo uma pulseira de prata cheia de penduricalhos, no pescoço um escapulário e um pingente de cristal para espantar mau olhado. Rasteirinhas pretas nos pés e na nuca uma flor de lis tatuada. Ele tinha os cabelos loiro nazista, vestia um casaco verde oliva com várias bandeiras costuradas sem ordem aparente. O shorts era preto e rasgado, um cinto de cordão pendendo da perna direita. Nos braços pulseirinhas de pano de festivais de rock.

Algum deles falou: “Não sei dizer qual teu tipo, mas sei que é o tipo mais certo pro meu.”

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Os três dividem uma mesa no bar irlandês perto da boate. A menina de óculos e cara emburrada diz para a outra: “Você já percebeu que ele só se veste de mulher quando sabe que vai alguém diferente?”

A outra, meio gordinha, cabelo pintado de vermelho, vira os olhos. “Jacob só quer se mostrar.”

O piá de casaco de couro toma um gole do copo de chope. “Virou moda ser gay agora…” balança a cabeça.

“Nossa, Gustavo,” diz a quatro olhos. “Se for pra falar merda nem abre a boca.”

A outra menina também encara. “Você não tem noção, né?” Vira a cara e continua a falar com a amiga: “e ele ainda escolhe cada vestido brega…”

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“…Você sabe que é impossível responder uma pergunta dessas.”

“Mas fala uma, porra.”

“Porra… Radiohead, então.”

Risada desdenhosa. “Que tal uma um pouco mais popular?”

“Guria, você pediu a preferida eu falei.”

“Mas falar que curte Radiohead é mesma coisa que não falar nada.”

“Cage the Elephant, então.”

“Melhorou. Curte Arcade Fire?”

“Bem mais original que Radiohead, mesmo.”

“Tá… Já ouviu Dirty Projectors?”

“Não. Já ouviu Sunny Day Real Estate?”

“Belle & Sebastian?”

“Tá velho, já.”

“Tá mesmo.”

“Curte Interpol?”

“Pra caralho. Prefere Sonic Youth ou My Bloody Valentine?”

“Isso é tipo Pelé ou Maradona.”

“Quem é Maradona?”

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“Tá, então o Vladimir Putin.”

O garoto de óculos de aro grosso fica teatralmente indignado: “Você só pode tar me zoando.”

Gustavo ri. “Mas eu não quero transar com homem nenhum, caralho.”

A roda inteira fica em silêncio. Uma loira oxigenada com brincos de pena suspira, afetada.

O menino vira o copo. “Eu não entendo essa brincadeira. Porque eu tenho que alternar entre homem e mulher? Eu não quero comer homem nenhum.”

O menino de camisa polo intervém: “Relaxa, Gus… Quase todo mundo aqui é hétero e leva numa boa.”

Gus se levanta. “Matheus, eu te conheço faz dez anos e hoje te escutei dizer que queria comer o Daniel Radicliffe. Tem noção do que você fez com minhas memórias do Harry Potter?”

Depois de uma gargalhada, Matheus complementa “…e eu tenho namorada.”

“Que deve te enrabar com um pau de borracha. Vou fumar um cigarro que eu ganho mais.”

O menino se afasta e a loira pensa alto: “Por que a gente ainda chama o Gus pra sair?”

 

Por Henrique Fanini Leite

2 Comentários

  1. Sérgio Souza fala: Responder

    Oi Henrique, gostei mt da linguagem utilizada, da dialogação.

    1. Obrigado, Sérgio. Adoramos seus comentários aqui na EMA =]

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