Gato do Poeta

Gatos

Tudo se acaba

Sete vidas ou nove vidas

Gatos também morrem

 

Ei! Eu fiz um haicai! Consegui! Sem ajuda! Eu, sozinho!

Preciso mostrar isso ao Poeta, mas… o poeta não tá em condições de apreciar haicais. Fora que, do jeito que os últimos dias foram tristes, eu não teria coragem de mostrar algo tão mórbido. Me contento com o autorreconhecimento, acho que já o escutei falar algo assim.

Enfim, acho que eu deveria comer agora, mas tenho preguiça. Mesmo assim, vou me recompensar com um bom banho de sol. Talvez eu não devesse passar pela sala agora. Pelo cheiro, sei que o Poeta continua sentado no mesmo lugar, com dois passarinhos e um rato apodredecendo debaixo da cadeira. Ele sempre me alimentou tão bem, achei que seria justo eu retribuir a gentileza. Mas, por algum motivo, ele não quer comer.

Não pense que sou idiota! Eu saberia se ele estivesse morto. Está bem vivo agora, tenho tanta certeza disso como tenho preguiça de levantar do meu cantinho do quarto e ir para o sol. Aqui está confortável como sempre, sobre minha velha almofada rosada. Vai saber, daqui a pouco o sol pode andar pelo chão e chegar até mim. Temos sempre de ser otimistas, meu amigo, ele também dizia.

E fui muito otimista nesses últimos dias. Sempre achei que tudo ficaria melhor nas horas que a Outra saía e ficávamos só o Poeta e eu, como antigamente. Mas o Poeta continuava sentado lá, sem reação. Antes disse, ele comia o que ela colocava em sua boca. Por um tempo, essa foi a rotina, que eu não gostava tanto assim.

Não pense que sou ciumento! Ela nem sempre lembrava que eu vivia naquela casa e que preferia voltar a comer minha ração na minha tigela. Ao invés disso, eu continuva caçando na rua, roubando comida dos vizinhos e ficando com fome quando não encontrava mais fôlego pra escalar os muros. Acho que a Outra nem percebeu quando derrubei — e quebrei — o pote de ração e menos ainda quando a ração acabou.

Mas eu entendo. O Poeta estava dando trabalho. Quando percebia que ela estava em casa, ele dizia coisas que a faziam chorar. Pelo tom na voz dele, não acho que eram Coisas Ruins ou xingamentos. Era confuso, ele chamava nomes de pessoas que não estavam lá, reclamava de coisas que não estavam acontecendo.

Tive minha cota, também, de coisas que me fariam chorar, caso eu pudesse chorar. Reconheço bem o barulho que ele faria pra me chamar e, por alguns dias, nenhum daqueles nomes foi o meu. Isso quando não atirava coisas em mim! Me escondia embaixo da cama, em cima do armário, muito assustado, admito. Ele era humano, mas era o meu melhor amigo. Eu não entendia porque ele passou a me tratar assim, ainda não entendo.

Tivemos muitos, muitos, anos bons. Ele cuidava de mim, eu cuidava dele — à minha maneira. Fazíamos companhia um pro outro, ele respeitava minha liberdade. Fosse outro humano que não ele, acho que eu jamais retornaria pra casa no fim da noite. Eu gostava mesmo de estar com meu amigo.

Mas nem sempre foi assim, ah, não! Ele costumava preferir cachorros. Costumava me dizer isso, como se eu pudesse responder. Eu diria, olha, não é minha culpa, me deram de presente pra você e agora você precisa me alimentar até eu poder caçar sozinho.

A birra dele durou pouco, meu estranhamento também. Ele era carinhoso, me dava atenção. Afastava a cadeira da mesa e parava de escrever, sempre que eu pulava no seu colo. Me dizia, a musa pode esperar, amigo, agora que você chegou.

Admito também, preciso admitir, que nos primeiros dias senti falta do cheiro quentinho e seguro da minha mãe. Foram dias difíceis, mas teriam sido impossíveis se não fosse por ele, pelo Poeta. Meu melhor amigo.

Não pense que sou idiota! Percebi muito bem que estou lembrando da minha vida do fim pro começo. Espero que a Outra volte logo e perceba rápido onde estou. Sejamos otimistas, meu grande amigo, pois o sol se moveu.

a

Agora estou quentinho.

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