Galvanismo (Tolstói)

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Além de escritor, Tolstói foi um influente ideólogo. Trocava cartas com Gandhi, por exemplo, tendo contribuído para seu conceito de desobediência civil não-violenta. Uma das principais preocupações do mestre russo era a emancipação e escolarização dos servos, libertos somente em 1861. Para isso, criou uma escola na propriedade de sua família, em Yasnaya Polyana, para a qual escreveu diversos livros didáticos. “Galvanismo” é um trecho do “Quarto Livro Russo de Leitura,” o último volume de uma coleção contendo pequenas narrativas das mais variadas, desde fábulas e contos populares até peças informativas, como a que reproduzimos nesse post. Neste conto, Tolstói reproduz uma das histórias mais populares da ciência, contada em diversas variações até hoje por professores de ensino médio e fundamental.


Era uma vez um sábio italiano chamado Galvani. Ele tinha uma máquina elétrica e mostrava a seus alunos o que é a eletricidade. Esfregava um vidro com força usando um pedaço de seda com óleo e depois aproximava do vidro uma plaquinha de bronze que se grudava ao vidro e uma fagulha saltava do vidro na direção da plaquinha de bronze. Ele dizia aos alunos que uma fagulha igual àquela também saltava da cera de lacre e do âmbar. Mostrava como as penas e o papel às vezes eram atraídos e outras vezes repelidos pela eletricidade, e por que isso acontecia. Fez várias experiências com eletricidade e mostrava tudo aos alunos.

Um dia sua esposa adoeceu. Ele chamou o médico e perguntou como curar a esposa. O médico mandou fazer uma sopa de rã para ela. Galvani mandou capturar rãs comestíveis. Capturaram as rãs, mataram e colocaram na mesa dele.

Enquanto a cozinheira não vinha para cozinhar as rãs, Galvani continuou a mostrar aos alunos a máquina elétrica e continuou a soltar faíscas.

De repente ele viu que as pernas das rãs mortas sobre a mesa tremiam. Começou a observar e notou que toda vez que ele soltava uma faísca da máquina elétrica, as pernas das rãs tremiam. Galvani pegou mais rãs e fez experiências com elas. Toda vez que saía uma faísca, as rãs mortas começavam a mexer as pernas, como se estivessem vivas.

Galvani achou que as rãs vivas moviam as pernas porque a eletricidade passava por dentro delas. E Galvani sabia que há eletricidade no ar, que na cera de lacre, no âmbar e no vidro, a eletricidade é perceptível, mas que ela também existe no ar e que os trovões e os raios acontecem por causa da eletricidade do ar.

Então ele começou a fazer experiências para ver se as rãs mortas mexiam as pernas também com a eletricidade do ar. Para isso pegou as rãs, tirou sua pele, cortou a cabeça e as patas dianteiras e pendurou-as em ganchos de cobre embaixo da calha de ferro do telhado. Ele achou que, quando viesse uma tempestade com raios e o ar ficasse cheio de eletricidade, ela ia passar pelos ganchos de cobre e chegar às rãs e elas iam começar a se mexer.

Só que houve várias tempestades com raios e as rãs não se mexeram. Galvani já estava começando a retirar as rãs, quando a perna de uma delas encostou na calha de ferro e estremeceu. Galvani retirou as rãs e começou a testar: prendeu um arame de ferro ao gancho de cobre e encostou o arame na pata da rã – a pata estremeceu.

Então Galvani concluiu que todos os animais vivem só porque há eletricidade dentro deles e também que a eletricidade passa do cérebro para a carne e por isso os animais se mexem. Na época, ninguém havia ainda experimentado direito esta tese, ninguém sabia, e todos acreditaram em Galvani. Na época, outro sábio, chamado Volta, começou a experimentar por conta própria e mostrou a todos que Galvani estava errado. Ele experimentou tocar na pata de uma rã de um jeito diferente do de Galvani, não tocou na pata da rã com um gancho de cobre e um arame de ferro, mas com um arame de cobre e um gancho de cobre, e também com um arame de ferro e um gancho de ferro – e as rãs não se mexeram. As rãs só se mexiam quando Volta tocava nelas com um arame de ferro preso a um gancho de cobre.

Volta achou também que a eletricidade não estava na rã morta, mas no ferro e no cobre. Começou a fazer experiências e pronto: toda vez que encostava o ferro no cobre, surgia a eletricidade; e com a eletricidade, as pernas da rã morta estremeciam. Volta fez mais experiências para ver se conseguia produzir eletricidade de um modo diferente do que já conheciam. Antes, faziam eletricidade esfregando  um vidro ou cera de lacre. Mas Volta começou a fazer eletricidade juntando o ferro e o cobre. Experimentou juntar o ferro e o cobre com outros metais e descobriu que da simples união de metais – prata, platina, zinco, estanho, ferro -, ele produzia fagulhas elétricas.

Depois de Volta, tiveram também a ideia de reforçar a eletricidade derramando vários líquidos – água e ácidos – entre os metais. Com tais líquidos, a eletricidade ficou ainda mais forte, de tal modo que já não era necessário esfregar para produzir eletricidade, como faziam antes; bastava pôr fragmentos de diversos metais numa xícara e entornar líquidos, que havia eletricidade na xícara e saíam faíscas de um arame.

Quando inventaram esse tipo de eletricidade, passaram a usá-la na prática: inventaram um meio de dourar e pratear com eletricidade, inventaram a luz elétrica e inventaram um meio de transmitir sinais à distância, de um lugar para o outro, por meio da eletricidade.

Para isso colocam fragmentos de diversos metais dentro de uns copinhos e derramam líquidos dentro deles. A eletricidade se acumula nos copinhos, depois transportam essa eletricidade por um arame para o lugar que quiserem e desse lugar passam o arame pela terra. Na terra, a eletricidade corre de novo para trás, para os copinhos, sobe da terra para eles por outro arame; assim a eletricidade não para de ir e vir entre dois lugares, andando em círculo, como num anel, pelo arame para a terra e de volta pela terra, e de novo pelo arame, e de novo pela terra. Se soltarmos eletricidade pelo arame e enrolamos um pedaço de ferro com esse arame, o ferro vai se tornar um ímã e vai atrair para si outro pedaço de ferro.

O telégrafo é feito assim: soltam a eletricidade pelo arame e enrolam uma barrinha de ferro com esse arame. Em cima dessa barrinha, instalam, em uma mola, um martelinho de ferro. Enquanto a eletricidade anda pelo arame, a barrinha de ferro, enrolada pelo arame, atrai o martelinho. Assim que na outra extremidade – pode ser a cem verstas* dali – soltam a outra ponta do arame, a eletricidade para de andar em círculo, a barrinha de ferro deixa de ser um ímã e o martelinho se desprende dela. Quando prendem de novo a ponta do arame, o martelinho é logo atraído. E assim é possível bater com o martelinho de uma estação para a outra. E por meio dessas batidas são enviados sinais.

Tradução de Rubens Figueredo


*Medida de distância equivalente a 1066,8 metros.

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