Fracasso

fracasso

O ar fresco encheu os pulmões quando passei meio tropeçando pela saída da balada sertaneja. Já não havia a aglomeração de pessoas de algumas horas atrás. Os labirintos de cordas e postezinhos iluminados pela luz da rua projetavam sombras paralelas na calçada. À esquerda, uma série de arbustos com folhas curtas ladeavam o muro de concreto.

“Graças a Deus!” Falei para Rodrigo, que ajeitava a camisa amassada. Percebi as manchas de suor nas axilas e olhei para as minhas próprias. “Velho, a gente tá ensopado.”

“Foda-se. Nunca pego ninguém nesse lugar mesmo.” Os olhos negros com grandes pupilas me encaravam. Dois piercings no topo da orelha esquerda.

“Conseguiu passar o cartão?”

“Não, depois lembrei que também já estourei o limite… Paguei essa merda com dinheiro mesmo”

Dei risada. “Você com essa camisa fica muito engraçado.”

“Que gay, Gustavo,” e enfatizou o comentário com uma porrada no ombro, prontamente revidada com um chute baixo. “Deu!” mostrou-me as palmas das mãos logo que ameacei um soco. “Bora pro Largo?”

“Tava afim também,” respondi, olhando para o celular, “mas acho que já era. São três e meia.”

“Jazz do Fox?” Propôs.

“É na quinta. Hoje é quarta.”

“Vai se foder, velho… De quem foi a ideia de vir nesse lugar?”

“Era aniversário da prima do… Ah, mano, eu não ia empatar foda.”

Um ronco sarcástico. Rodrigo puxou um cigarro e tentou jogar na boca. “Puta que o pariu,” murmurou, agachando-se para juntá-lo.

“Lembrei que preciso fazer uma coisa”

Andei até os arbustos e comecei a afastar os galhos. Os estalos ressoaram pela rua deserta.

“Tá fazendo o que?”

“Você já vai ver,” respondi, a cabeça mergulhada entre as folhas. Escutei passos se aproximando e contraí a bunda com medo de um chute.

“Vambora, caralho. Tô numa larica foda…”

“Vai se foder, Rodrigo. Preciso achar uma coisa.”

“No arbusto?”

Quando meu rosto emergiu do emaranhado de galhos, havia um pequeno corte na bochecha esquerda. Sentia arder, mas sorria: “Achei!” e mostrei o copo de plástico fosco com tampa azul.

“U-au! Que merda é essa?”

“É do Rafa. Peguei no esquenta e vim bebendo. Não quis jogar fora.”

Os braços cruzados, Rodrigo balançou a cabeça. “Só você, Gus…”

Começamos a andar em direção à avenida batel. Um carro ou outro ofuscava a vista com os faróis. Me imaginei tendo um carro. Abri os olhos dentro de um, as luzes dos postes desfilando pela esquerda, o vento no lado da cabeça. O som alto do motor roncando até atingir a próxima marcha, terceira, quarta, quinta. Passo pela Mario Tourinho e corro até a BR sem frear nos radares. Vou-me embora daqui, não volto mais. O carro passa os cem por hora. Aumento o volume: um rock no rádio. A cento e quarenta respiro devagar e sem pensar, pequenos detalhes iluminados pelos faróis passando em câmera lenta.

Pisco duas vezes: “O Dog tá fechado. Vamos ter que ir até o Mac.”

“Merda da porra! Mac é caro pra caralho.”

“Nosso estilo de vida tem seu preço…”

“Cara, impressionante, você consegue ser veado em tudo que sai da tua boca”

Cuspi no chão.

“Ficou brava, a moça?”

“Queria dirigir”

“Fumar um cigarro e dirigir,” falou devagar.

“E uma mina beijando a nuca,” concordei.

“Não, cara, nessa hora você precisa é de um som”

“Soooooom,” gritei, “vou precisar escutar alguma coisa decente antes de dormir”

“Óbvio, moleque. Magina dormir com ‘ai se eu te pego’ na cabeça?”

“Acho que essa nem tocou”

“Gustavo, foda-se qual música tocou. Era uma piada”

Rimos. Uma mulher escutou e atravessou para o outro lado da rua. Tinha a pele muito branca, usava salto alto e vestido curto, preto, tipo tubo. Admirei aquele belíssimo exemplar pasteurizado e embalado sob processo UHT, especialmente produzido para agradar o gosto médio daqueles homens de balada igualmente médios, com seus peitorais inflados sob camisas xadrez. Me pergunto se assim tentam se diferenciar, ou se chegam a pensar no significado daquilo que vestem. Colocar um salto de dez centímetros para ir dançar! Será que acreditam na própria mentira?

“Eu é que devia ter medo…” comentei.

Rodrigo acendeu outro cigarro. “Deixa de ser trouxa, Gustavo. Se ficar engomadinho e pagar de caubói desse certo pra gente, você tava lá todo dia”

Não respondi. Por alguns instantes pude ouvir nossos passos e os da menina. O salto fazia muito mais barulho. Os estalos curtos e ritmados lembravam minha mãe chegando pelo corredor de casa. Meus tênis tinham desenhos à canetinha e os cadarços passados em x. Os cadarços do tênis do Rodrigo não se cruzavam, passando como uma espiral de caderno pelos buracos. Não havia nó aparente: as duas pontas ficavam guardadas em baixo da palmilha.

“Eu que te ensinei,” comentei, apontando.

“Grande merda. Olha quanta mina eu peguei por causa disso”

“A mina certa repara,” desejei.

Rodrigo permaneceu em silêncio, me deixando entrar em devaneios.

“A mulher perfeita definitivamente fuma joint,” sentenciei. “Já transou chapado?”

“Já,” me encarou, como se a dúvida o ofendesse, “e você?”

“Só chapado, nunca. Mas já transei raiado”

“Foi bom?”

“Nunca gemi tanto, foi meio embaraçoso, na real”

“Embaraçoso,” me imitou com voz fanhosa, “por que você usa essas palavras?”

A lanchonete era o único prédio aceso em toda a rua. As luzes brancas machucaram os olhos. Andamos até a entrada, mas a porta não abria.

“Vamos ter que usar o drive thru,” disse Rodrigo.

“Quem nunca?” dei de ombros.

Tivemos que nos abaixar para falar no interfone. Não havia nenhum carro na fila. Pedimos o cheeseburger de oito pila na promoção e uma coca gigante. A atendente do segundo guichê era adolescente, o rosto cheio de espinhas.

“Alguma vez você já viu um atendente do Mc Donalds com mais de trinta anos e sem espinhas?” perguntei logo que pagamos.

“Você me deve dez reais”

“Na real te devo uns duzentos”

“Duzentos e setenta e cinco, agora”

“Mas você já viu uma atendente sem espinhas?”

“Cê acha que eu reparo?”

“Eu não te devo tanto assim. Você contou aquela grana do aluguel do carro?”

“Nem sei,” chutou uma garrafa da rua. “Quer um cigarro?”

“Eu não fumo”

“Gustavo, eu não entendo você: você cheira coca e não fuma”

“E ao invés de me fazer parar de raiar, você tenta me fazer fumar também?”

“Foda-se você morrer: cê não entende como eu queria alguém pra fumar um cigas comigo agora?”

A comida chegou quando Rod deu a última tragada. Deixei que ele a buscasse. O orvalho do meio fio molhou a bunda. A névoa espessa que começava a se formar refletia o amarelo das luzes dos postes. Comemos em silêncio.

Depois da última mordida, perguntei: “A mulher que deu a comida era espinhenta?”

“Era a mesma”

“Tem certeza que não era um clone?”

“Pare de se drogar, Gustavo”

“Será que a gente não descola um joint?”

“Cabou minha grana”

“Será que não aceitam…” Calei. “Como a gente vai voltar pra casa?”

“Já tinha flagrado isso… acho que são umas três horas a pé,” disse meu amigo, levantando.

Também fiquei de pé. “Bota um som no seu celular”

Rodrigo riu. “Cabou a bateria”

“O meu tem”

“Finalmente você prestou pra alguma coisa, minha puta tetuda” sorriu, me sacudindo pelos ombros.

“Cala boca e anda. Vamos ver se a gente chega na BR antes do sol nascer.”

Rod acendeu o quarto cigarro e eu usei o copo para amplificar o som do celular. Precisei de dois passos para começar a sorrir.

Por Boris Glazunov

1 Comentário

  1. Gilberto Moura fala: Responder

    Parabéns e parabéns!!

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