Filho de Saul

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Saul Fia, de 2015, é o primeiro longa-metragem do diretor húngaro Lázló Nemes. O roteiro, desenvolvido em parceria com Clara Royer, levou aproximadamente três anos para ser finalizado e parece que o esforço valeu a pena, dado aos inúmeros prêmios que filme recebeu; no entanto, os méritos da obra vão muito além.
A história, que se passa em 1944, mostra Saul Ausländer, judeu húngaro, preso no campo de concentração de Auschwitz-Birknenau. Ele trabalha em uma equipe chamada Sonderkommando, responsável por conduzir pessoas recém-chegadas nos trens para as câmaras de gás, recolher suas roupas, arrastar e queimar os corpos, jogar suas cinzas no rio mais próximo. Apesar de ter certos “privilégios”, os membros da Sonderkommando eram mortos depois de poucos meses nesta função, para evitar que qualquer notícia sobre os assassinatos ocorridos no local fossem noticiados.
Em um dia de “trabalho”, ao retirar corpos da câmara, percebe-se que um menino havia sobrevivido ao gás, mas apenas para ser morto friamente a seguir por um oficial alemão. Saul, depois de tudo presenciar, rouba o corpo da criança e começa uma peregrinação entre os prisioneiros em busca de um rabino, pois deseja enterrar o menino, de quem ele alega ser o pai. Para a tradição religiosa judaica, durante o enterro, é necessário que se faça uma oração específica chamada Kadish; além disso, segundo a crença, a alma não consegue repousar até o corpo ser sepultado.
Sufocante. Pois parece ser exatamente isto que pautou as escolhas estéticas de Lázló e que diferenciam este filme de tantos outros sobre a Segunda Guerra. Logo no início do filme, Saul é apresentado em um plano close e pelos próximos 107 minutos será através de seu ponto de vista que a história se desenvolve. Para isso, a câmera segue-o durante todo o tempo, sempre mostrando seu rosto, nuca ou ombros, em longos planos sequências. Assim, tem-se apenas um vislumbre do que ocorre à volta do personagem, com fragmentos de imagens não mostradas ou desfocadas. Esta opção de linguagem, auxiliada pela sonoplastia do filme, nos leva a imaginar o horror que o filme não mostra, dos quais apenas intuimos e vemos seus efeitos em Saul, com quem criamos, inexoravelmente, uma relação identificatória e de intimidade. A escolha do quadro 4:3, neste caso, ajuda ainda a transmitir esta sensação de confinamento.
Em tempos em que se discute banalização e exibicionismo, o diretor escolhe o caminho contrário sem, no entanto, perder o impacto. Ao não exibir a violência, Lázló consegue torna-la tão palpável quanto incômoda, em um belo exemplo do que o cinema pode fazer.

Mariana Cavariani

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