Fazíamos Direito

Hoje vi um menino na estação vestido de preto com a capa que aqui os universitários usam, ao menos os do curso de Direito. E lembrei quando éramos jovens e fazíamos Direito.
Ainda somos jovens mas indiscutivelmente já fomos mais jovens. Jovens no liminar entre a adolescência e a vida adulta, a fingir sermos as pessoas legais que, na verdade, somos apenas agora. Agora e não quando a cor do seu cabelo era um castanho claro forte e a do meu cabelo era um castanho escuro com potência de brilho preto. Sobre o passado um pano preto. Sobre o presente, um foco de luz branca como as luzes brancas do vagão a refletir nas poltronas vermelhas de assentos azuis que não combinam entre si…
Combinamos muito entre nós – lá e não agora – mas não fizemos nada das coisas que dissemos que faríamos: fizemos coisas bem melhores. Mas seria bom termos feito essas coisas e ainda sermos jovens, eu pensei quando vi o menino. Ainda somos jovens, eu sei, mas aos 30 já é possível sentir falta de alguma coisa que ainda não terminou, como um creme de contorno de olhos maravilhoso quando o pote está da metade pro fim.
Agora uso creme para o contorno dos olhos. Gostaria que você começasse a usar o cabelo mais comprido e para o lado, para esconder as entradas. Ou que raspasse com máquina 1, para assumir as entradas. Só para achar que alguma coisa entre presente e passado conserva para sempre um ser em perspectiva. Mas o melhor que pudemos foi descobrir juntos a independência. Você não tem entrada alguma. Você quase nem testa tem, de tanto cabelo. Os fios como uma fortaleza. Você sempre foi assim, sem nenhuma entrada.
Hoje fiquei em casa de pijama. Aí no final da tarde vesti uma saia e fui pra rua. Não a mesma saia dos últimos dez anos; uma saia nova, dois palmos mais comprida porque tenho preguiça de caminhar com qualquer coisa que me obrigue a pensar para sentar. O meu cabelo está mais curto. A minha saia mais longa. A necessidade de não pensar demais continua urgente.
O menino da estação entrou no mesmo vagão que eu. E passei um bom tempo a olhar para ele, porque agora já não tenho vergonha de olhar para as pessoas. Eu estou mais sincera, mesmo quando não digo a verdade, entende? Tanto que devo admitir: olhei para o menino com a minha testa um pouco franzida e o olhar meio perdido, sem vontade de passar a mão nos meus cabelos ou ajeitar a minha postura. Eu não queria que ele pensasse, como você pensou um dia, que eu o olhava como olhei pra você um dia, e isso é ser sincera embora seja mentira, é claro, dizer que não queria que ele me achasse bonita & interessante.
O chato é que eu, mesmo querendo, não consegui achá-lo bonito ou interessante: no rosto sem nenhuma linha de expressão, o menino começou a encher as bochechas de ar e bater o indicador nelas como um alfinete e um som oco começou a se misturar com o som do túnel e isso produziu um sentimento tão comprido. É que cada vez mais eu olho para os homens como se eles fossem filhos, não os de alguém, mas os meus mesmo. E penso que talvez eu precise ter um filho para ter a chance de voltar a enxergar os homens como filhos de outra, com a vaidade que eu tinha de achar que os filhos das outras eram feitos para mim quando não sabia que as mulheres fazem os filhos para elas mesmas e só.
Na próxima estação uma mulher da minha idade entrou no vagão. Umas calças largas, um cabelo espinafrado de tanto descolorante, a boca roxa, uma sombra preta, mascava chicletes e tinha um piercing na sobrancelha. E achei o piercing dela uma coisa tão antiga, de ainda antes da época em que éramos jovens, eu, ela e você. Talvez tenha sido por isso que o jeito dela de me olhar pareceu tão adolescente. Enquanto o menino se distraía com o telefone, as bochechas cheias de ar e o mindinho dentro do ouvido, ui, que nojo, a mulher-alternativa segurou a barra do trem e mediu meu corpo dos pés à cabeça.
A minha saia comprida parecia ainda mais comprida e dei graças de o meu cabelo estar bem curto porque se ele estivesse enorme eu teria me sentido tão carola. O mais interessante é que mesmo eu estando com aquela saia e sendo assim tão discretinha, a mulher continuou a olhar para mim. De um jeito que eu tive que olhar de novo para o menino. De um jeito que você nunca me olhou.
 Na penúltima estação ele saiu, o vento do túnel erguendo a capa, fantasia de voo. E o vagão ficou quase sem ninguém, quase só ela e eu. Então como quem aproveita a chance pra alguma transgressão resolvi mexer nos meus cabelos, ajeitar a minha postura e olhar para a mulher e sorrir para ela, sem mostrar os dentes, é claro, aquele sorrisinho sonso que eu sorria pra você quando éramos jovens. Meninos e homens feitos já se tornaram fáceis demais? Ou apenas invento novas formas de repetição?
Lembrei quando éramos jovens e eu te seduzia, mas só até você vir atrás de mim. Você talvez tenha alguma entrada. Eu é que sempre fui assim, sem saída.
Vi meu rosto tão nítido no vidro da porta diante da qual aguardava a próxima estação, as pernas abertas tentando manter o equilíbrio sem precisar segurar em nada. Quando o trem parou eu desci bem rapidinho. E ela não veio atrás de mim.

Andressa Barichello nasceu em São Paulo. É mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa e co-fundadora do projeto de Coinspiração Cultural Fotoverbe-se.com no qual realiza vivências com artistas. É autora do livro “Crônicas do Cotidiano e outras mais” vencedor do prêmio Alejandro Cabassa pela União Brasileira dos Escritores do Rio de Janeiro, publicado em 2014 pela Scortecci Editora.

Arte: Nanna Ajzental

1 Comentário

  1. Tania fala: Responder

    perfeito

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