Fazer a cabeça

Pesquisei uma coleção de cortes de cabelo. Pensei encontrar o ideal e levá-lo às mãos da cabeleireira. Qual seria o melhor candidato? Quero ficar como ela é um pedido aprendido há tanto tempo que já não sei quão antiga é a mania de esperar ficar mais bonita à medida que possa parecer menos comigo.

Salvei os assimétricos, bicudos, curtinhos. E levei o meu: fio inteiro, pontas retas, tamanho médio.

O salão está sempre com as portas de vidro abertas. É pequeno. Um passo e já se está fora da calçada e dentro, muito dentro, do território de Odete. Ela sentada numa cadeira ao fundo. Uma das penas dobrada e a outra esticada fazem com que consiga virar-se num instante: o corpo apontando para o espelho volta-se à porta, surpreendendo a visita.

Boa tarde!

Ela se levanta e eu recuo. O espaço é pequeno e enquanto falo esbarro em cadeiras e carrinhos. O secador esparramado e os grampos e as escovas não são seringas ; mas é como se pudessem espetar, agulhas. Solto os cabelos e começo a explicar. Nessa hora as cabeleireiras sempre dizem sente-se! e começam a mexer nos cabelos mal lavados e despenteados da cliente enquanto escutam.

Mas Odete só escuta, parada com as mãos na cintura. Depois, como fosse surda, diz que vai repicar tudo. E eu digo que não e ela diz que sim, um escadeado.

Aponto um corte pixie numa revista sobre a bancada e digo: um dia, Odete, um dia.

Talvez com a esperança de que ela mais uma vez me contrariasse?

As revistas estão todas encapadas com um plástico rijo, para resistirem mais. No salão unissex a clientela heterogênea folheia conteúdos variados: cabelos, moda, saúde, ciência e política. Odete entrega nas minhas mãos uma de política, como à espera de que eu diga algo sobre a capa. Não digo nada: entregar os meus cabelos para que sejam cortados já faz-me sentir vulnerável demais. Na pequena televisão pendurada ao alto, no canto da parede, notícias sobre o Brasil.

O seu país vai mal, menina, muito mal!

Com a capa preta sob meus ombros e as mechas separadas e grampeadas de alto a baixo, estou pronta.

Odete está sentada em sua cadeira de rodinhas atrás de mim. Como um caranguejo ela vai de lado a outro. É a primeira vez que uma mulher corta os meus cabelos sentada… É também a primeira vez que uma cabeleireira não me pede para abaixar o cabeça. O seu corpo cerca o meu, mas não sinto desconforto.

Aquele homem! Diga, diga: como é que o vosso povo aceita uma tal candidatura?

Com o pescoço voltado ao espelho acompanho Odete: ela trabalha como se fizesse tricô, agulha. O barulho do corte se confunde com os cochichos. Fascista, pois não? Ora…

Enquanto ela esculpe a minha cortina de fios com uma navalha tão afiada quanto a língua ” Qual seria o melhor candidato?” é uma dúvida que ambas não temos.

E os cabelos vão caindo leves como pena.

E não sinto pena.

Exausta do exercício de questionar cabeças que, ditas conservadoras, são apenas retrógradas, permiti-me deixar mudar a minha. A cabeleira, imutável nos últimos anos, disposta à boa revolução. Como metáfora para o gesto mais simbólico e potente que se pode fazer hoje, eu disse: Odete, quer saber? Confio em você! Vai com liberdade, faz um corte bem bonito pensado especialmente para mim!

No caixa, enquanto acerto o pagamento, vejo o mural. Nesse mês o salão completa 40 anos no mesmo endereço: Rua 25 de abril.

Nas fotografias, fotos da cabeleireira com as ultimas quarenta idades e os mais variados cortes e penteados.

Tive todos os cabelos que eu quis, ela suspira e sorri, realizada.

Como é boa a democracia. Como é bom esse novo corte de cabelo.

Despeço-me de Odete mais confiante; e ansiosa pelos próximos quarenta anos.

 

Andressa Barichello nasceu em São Paulo. É mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa e co-fundadora do projeto de Coinspiração Cultural Fotoverbe-se.com no qual realiza vivências com artistas. É autora do livro “Crônicas do Cotidiano e outras mais” vencedor do prêmio Alejandro Cabassa pela União Brasileira dos Escritores do Rio de Janeiro, publicado em 2014 pela Scortecci Editora.

Arte: Nanna Ajzental

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