Fausto

Embora contenha diversas referências ao famoso poema de Goethe, a história do Fausto retratada pelo diretor Aleksandr Sukurov distancia-se da lenda original. Nisso, a obra segue a tendência estabelecida por Moloch, Taurus  e O Sol, os três componentes anteriores de sua tetralogia sobre os efeitos corruptores do poder. Em todas estas obras, as figuras retratadas – Hitler, Lenin e o imperador Japonês Hirohito nos três primeiros, e o ficcional Fausto no último – apresentam aspectos diferentes daqueles tradicionalmente associados as suas figuras.

Na Alemanha, em uma época não muito bem definida, o Doutor Fausto vive na pobreza e já não encontra satisfação em suas pesquisas. Ao conhecer o agiota Mauricius, cuja verdadeira natureza é o demônio Mephistoles, Fausto embarca numa jornada fantasmagórica. Ao contrário da lenda original, não é a sede de conhecimento que seduz o estudioso, mas a jovem Gretchen, retratada como a personificação da juventude inocente. Fausto vende a alma em troca do amor da menina, mas a culpa e o arrependimento o impedem de desfrutar daquilo que obteve.

Fausto foi vencedor do Leão de Ouro do festival internacional de Veneza. O filme apresenta muitas marcas de estilo de Sukurov, como o foco difuso e o esforço em minimizar o impacto dos cortes de cena, características levadas ao ápice em Arca Russa. Sukurov não é partidário de uma arte engajada, e esta obra não é diferente – se há algum ponto de vista além do estilístico, este é filosófico: Mauricius traz uma argumentação niilista à obra, que é por vezes corroborada pelo personagem principal, mas finalmente rejeitada. O filme é movimentando para os padrões do cinema russo, mas pode parecer tedioso àqueles que não estejam interessados nos aspectos formais da obra. As figuras monstruosas são uma atração a parte: um horror muito diferente da sanguinolência desmiolada dos enlatados americanos.

Por Henrique Fanini Leite

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