Faltou-lhe Apenas uma Coisa

Julia deixou o seu país com a promessa de nunca mais voltar; ela tinha 25 anos. Porto Rico e a poesia nunca mais foram os mesmos.

A mais velha de um total de 13 irmãos, a poetisa Julia Constanza Burgos Garcia nasceu em Carolina, Porto Rico. Era 1914, era uma ilha ainda colônia[1], uma família humilde, e ela, a única dentre todos os seus irmãos a conseguir realizar estudos secundários.

Em 1938 auto publicou a sua primeira coleção de poemas, Poema em veinte furcos, aos 24 anos, e, já no ano seguinte, uma segunda coleção intitulada Canción de la verdade sencilla. Seu trabalho lhe garantiu acesso à comunidade intelectual porto-riquenha, mas logo percebeu uma grande dicotomia entre ela e toda essa suposta intelectualidade. Mulher, divorciada, classe trabalhadora e ascendência africana eram adjetivos um tanto quanto mal vistos nos anos trinta em uma sociedade majoritariamente católica. Esses mesmos intelectuais que moldaram a identidade da ilha não se mostraram muito dispostos a acatar ideologias “progressistas” como o feminismo e a justiça social, que representavam, inevitavelmente, a essência de Júlia.

Ela precisava fugir. Dos costumes e dos dogmas, do guarda-chuva que a guardava, não da chuva, mas da igualdade.

Formou-se professora pela Universidad de Puerto Rico e, posteriormente, viveu relacionamentos efêmeros que a levaram à Nova Iorque e à Cuba, onde viveu por dois anos.

Após o seu primeiro divórcio, Júlia decidiu adicionar o “de” ao seu nome, o que, naquela época, estava associado aos nomes de pessoas casadas, como uma posse. Nesse momento, tornou-se dona de si mesma.

 Em 1942, retornou à Nova Iorque, pela segunda vez divorciada e emocionalmente abalada, e passou a escrever como colaboradora e editora dos segmentos de Arte e Cultura para o periódico progressista (ou seria socialista?) Pueblos Hispanos. Considerada a mãe do movimento poético Nuyorican, de Burgos sempre defendeu o nacionalismo e a identidade porto-riquenha. Ela explorou magistralmente o passado colonial da sua ilha-mãe, o imperialismo norte-americano e o legado que a escravidão deixou. Em outras palavras, desafiou as normas sociais da época (e continua o fazendo até hoje).

O fim de sua vida, infelizmente a imposta apoteose de todo grande artista, transformou-se em uma inevitável depressão, amparada pelo seu inseparável, porém frígido, amigo: o alcoolismo. Inevitável, creio eu, por perceber que as suas lutas, embora repletas de conquistas, ainda estavam longe do ideal. Ideal esse que não chega nem perto do idealismo romântico, mas sim do mínimo esperado de uma sociedade justa e igualitária.

Júlia deixou de compartilhar sua luz em nosso planeta no dia 6 de julho de 1953. Vítima de um engano, foi enterrada sem identificação em uma vala comum, pois as autoridades não conseguiram encontrar seus documentos. Posteriormente, seu corpo foi identificado por familiares, que repatriaram seus restos mortais para Porto Rico.

 

A JULIA DE BURGOS

Muita gente murmura que sou tua inimiga,

porque dizem que em verso dou ao mundo quem és

 

Mentem, Julia de Burgos. Mente, Julia de Burgos.

A que se ergue em meus versos não é a tua voz, é a minha,

porque és o vestuário, a essência sou eu;

e o mais profundo abismo se estende entre nós duas.

 

Tu és fria boneca de mentira social,

E eu, viril fulgor da honestidade humana.

 

Tu, mel de hipocrisia cortesã, eu não;

que em todos os meus poemas desnudo o coração.

 

Tu és como o teu mundo, egoísta, eu não;

que inteira me atiro para ser o que sou.

Tu és somente a grave senhora senhorona;

eu não, eu sou a vida, a força da mulher.

 

Tu és de teu marido, teu amo; eu não;

eu de ninguém, de todos, porque a todos, a todos,

em meu limpo sentir e em meu pensar me dou.

 

Tu frizas teu cabelo e te pintas; eu não;

a mim me friza o vento, a mim me pinta o sol.

 

Tu és a dama caseira, resignada, submissa.

Atada aos preconceitos dos homens; eu não;

o Rocinante eu sou correndo desbocado

farejando horizontes de justiça de Deus.

 

Tu em ti mesma não manda; a ti todos te mandam;

em ti mandam teu esposo, teus pais, teus parentes,

o padre, a modista, o teatro e o cassino,

o carro, os anéis, o banquete e o champanha,

o céu e o inferno, e o que de ti dirão.

 

Em mim, não, que em mim manda o meu coração,

só o meu pensamento, quem manda em mim sou eu.

 

Tu, flor aristocrática, eu sou a flor do povo,

tu em ti tens de tudo e a todos tudo deves,

enquanto o meu nada a ninguém devo, nada.

 

Tu, cravada no estático dividendo ancestral,

eu sou uma só na cifra do divisor social,

somos o duelo a morte que vem vindo fatal.

Quando as multidões corram alvoroçadas,

deixando atrás cinzas de injustiças queimadas,

e quando com a tocha das sete virtudes,

atrás dos sete pecados, corram as multidões,

contra ti todo o injusto e o desumano,

no meio delas vou com a tocha na mão

 

(BURGOS (1939) apud ALARCÓN, 2011, p. 10)

 

Análise

 

Quiçá o novo grito do Ipiranga! A queda da bastilha da Literatura! Ou então o esfacelamento do Império Bizantino, que nos impeliu à modernidade. Louvados sejam a modernidade e o iluminismo, que trouxeram razão aos – quase sem razão – homens! Mas não! Esse poema pode ter todas as qualidades para ser um dos maiores já feitos no último século, mas ainda assim lhe falta um quê que não sei dizer; esse poema não é isso tudo que escrevi devido a um mísero detalhe: não ter sido escrito por um homem.

Os versos do poema “A Julia de Burgos” são brutais como a realidade de todas as mulheres dos anos 1930. São o resultado de uma resignação que dura uma vida inteira. Correntes de ferro (ferro masculino) que tentam a todo custo prendê-la. A autora empresta a sua vida a um eu lírico que utiliza todo o sofrimento pelo qual já passou para tecer crítica social. A rememoração que faz daquilo que já viveu, serve para colocar óleo de baleia no lampião da verdade; a verdade que todos ignoram.

Esse poema, imagino eu, pode se tratar de uma conversa com o espelho: ora fala com alguém que consegue tornar vistosas as correntes que a prendem; ora é ela mesma, que virá com “a tocha na mão” para derreter esse ferro imposto. Júlia esperneia logo no início, quando tenta mostrar que ela não é a inimiga de nenhuma mulher, pelo contrário: ela mostra ao mundo, em poesia, quem ela realmente é.

De Burgos foi uma mulher cuja obra pode ser caracterizada por uma enorme capacidade de projetar as dificuldades enfrentadas pelas minorias de seu tempo. Ela deu voz à grupos que antes nem boca possuíam. É uma autora com um propósito histórico e, infelizmente, ainda muito atual.

É como disse Lucilaine Anschau: se ela não escapa da perseguição do seu tempo, também não escapa da obrigação a que suas palavras a submetem: a de exclamar, de denunciar e unificar “os seus”. É por meio da linguagem poética que a autora se torna capaz de construir profundas reflexões e demonstra a sua indignação acerca do preconceito e discriminação normatizados na sociedade do seu tempo.

Se Nietzsche já foi, há alguns séculos atrás, considerado louco por impedir que um cocheiro espancasse um cavalo (verifique a fonte, leitor, não sou dos mais confiáveis) imagine ainda o tanto que a nossa sociedade – que acredita que mulheres, por engravidarem, não mereçam o mesmo salário que homens – ainda precisa evoluir. É chocante o fato de que, quase 100 anos depois, esse poema ainda seja tão relevante.

Por Lucas Morgenstern

[1] Hoje Porto Rico possui o status de ‘Território não incorporado’ dos Estados Unidos.

1 Comentário

  1. Algacyr fala: Responder

    Gosto muito de ler o que você escreve. Você retrata com muita fluidez o teu personagem e nos facilita a compreensão das emoções envolvidas. Parabéns

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