A Exatidão das Horas

          Às seis o despertador do celular tocou. Normalmente Juliano logo levantaria, estava habituado a acordar cedo desde pequeno para ir à escola e não costumava enrolar, tinha orgulho em dizer que sua mãe nunca precisou ficar berrando pra que ele saísse da cama e no fundo desprezava quem não tinha o mesmo ânimo. Mas naquele dia, apertou o botão da soneca por duas vezes, o que o fez atrasar vinte minutos. Ele poderia deixar o café de lado, mas não Juliano. Todos os dias, depois de levantar, ia ao banheiro, depois à cozinha, onde colocava água na cafeteira, sem ligá-la. Em cima da mesa deixava um copo de suco de laranja, uma tigela de cereais e o pão com queijo branco, afinal “tinha que ingerir cálcio”, foi o que o médico lhe disse. O banho não durava menos de vinte e cinco minutos; quarenta na verdade, contando o tempo de fazer a barba e procurar algum pelo fora do lugar ou qualquer coisa que depusesse sobre sua higiene. De volta à cozinha, ligava a cafeteira, retornava ao quarto, vestia a roupa escolhida e deixada sob a cadeira na noite anterior e finalmente sentava para comer. Escovar os dentes, conferir se sobrou alguma remela, ajeitar a sobrancelha e o cabelo, muito importante, revisar tudo que foi feito antes e Juliano saía às oito da manhã. Mas naquele dia, os vinte minutos de soneca. Assim que o celular gritou atrasado em sua orelha, ele levantou assustado e pôs-se a realizar seu ritual matutino, mais rapidamente, mas sem deixar nenhum item de fora, o café, o suco, o cereal, o pão, o queijo, o banho, a barba, a roupa, o pelo, a remela, a sobrancelha, o cabelo, os dentes e Juliano saiu às oito e meia. 

           Trabalhava no centro, avenida larga e movimentada, em um prédio todo espelhado onde gostava de ver seu reflexo e como aquela roupa lhe caía bem.  Quase chegava a falar ao seu duplo refletido, enquanto aproximavam-se mais até encontrarem-se na porta que abria automaticamente. Mas, atrasado, passou correndo pela calçada, pegou carona com alguém que também entrava no prédio, pensou ter sorte ao encontrar o elevador chegando ao hall e acompanhou os números dos andares enquanto subia. Antes da porta abrir no vigésimo terceiro andar, pulsação em 130, contou, respirou fundo e entrou placidamente no escritório. Passou pela seção de atendimento onde jovens que fizeram dezoito anos ontem dividiam-se entre atender telefones, digitar em seus próprios celulares e rir entre si; pela seção de vendas, onde não tão jovens de gravatas compradas na loja da esquina ou saltos angulosos incomodavam-se com as risadas ao lado, afinal eles eram muito compenetrados cada qual em seu computador e não tinham tempo de interações pessoais; depois pela seção daqueles que se vestiam esporte chique (tinha lido uma matéria sobre isso) e conversavam civilizadamente apenas uns com os outros, com ar blasé, já que eram feras em tecnologia da informação e, finalmente o seu setor, o de marketing, onde todos fingiam alguma coisa. A empresa tomava dois andares do prédio. Enquanto o primeiro era um grande salão cheio daquelas divisórias onde quarenta pessoas disputavam a vez na máquina de cópias, a última xícara de café ou discutiam por dois dias sobre quem havia roubado o lanche da geladeira, todo o espaço de cima era dividido em quatro grandes e espaçosos escritórios dos diretores, além de uma sala de reuniões. E era ali que Juliano devia estar às dez e quinze. 

            Denise veio ao seu encontro, sorrindo e estrangulando uma caneta discreta. 

            – Onde você estava, seu filho da puta? Nunca atrasa e faz isso logo hoje? 

          Às três da manhã, Juliano tinha acordado. Era a terceira vez só naquela semana, sempre na mesma hora. Ele começou a ficar preocupado, sua reputação não podia permitir bocejos escapulidos em suas importantes reuniões. Virou para os lados quatro vezes e resolveu passar na cabeça sua fala para o dia seguinte, dormiu pouco antes de começar o discurso do gran finale. 

            – Trânsito. Um caminhão tombou, pegou toda a pista. 

             – Não me interessa, pega logo as sua coisas que o resto do pessoal tá esperando só você. 

          Em sua mesa, Juliano tirou os documentos de dentro da pasta, colocou-a na gaveta, trancou e guardou a chave no bolso. No fundo da sala, sua equipe, Rogério, Graciele, Carlos e agora Denise o esperavam. Tentando driblar o mau humor alheio devido ao seu atraso, Juliano deu bom dia a todos fazendo questão de cumprimentá-los com apertos de mãos firmes mas não apertados e um leve afago não intrusivo no ombro. Tinha lido sobre esta técnica em um livro para desenvolvimento de líderes. Repassaram rapidamente os tópicos que cada um iria falar antes de subirem. Juliano achou importante encorajar os colegas, o que não surtiu o efeito desejado. 

         No meio do caminho, Graciele perguntou sobre a estranha exatidão do horário marcado para a apresentação. Ela estava a menos de um mês na empresa e ninguém a queria no time, menos o Carlos, que estava de olho nela. Feng shui, limitou-se a responder Juliano. O dono da empresa, de quem eles nunca tinham visto a cara, era da China e fazia questão de estabelecer horários para decisões importantes em todas as suas filiais pelo mundo, de acordo com os bons agouros da tradição milenar. Juliano questionava-se às vezes se alguma reunião já teve que ser marcada à uma da manhã. 

           Quando adentraram a sala de reuniões, a outra equipe já estava a postos e conversava animadamente com os diretores. Cumprimentaram-se todos com polida educação, veladas intenções e sentaram-se. Um dos chefes perguntou se havia algum acordo sobre quem iniciaria as apresentações e após alguns segundos de hesitação, decidiram-se pela justeza dos que adiantaram-se à hora, com concordância de ambas as partes. Tudo seria gravado e enviado para a China, o motivo não era bem claro, mas deixava a todos um pouco histéricos. Uma hora depois, havia chegado a oportunidade de Juliano e sua equipe, mas no momento em que começariam, a gravação falhou. Extenuantes dez minutos, dois entendidos em equipamentos e um colaborador da limpeza para secar a água acidentalmente derramada depois, o processo recomeçou. Tinham-se dividido, todos esforçaram-se para demonstrar expertise e know how, mas Juliano julgou ter ficado com a melhor parte, o final, a grande conclusão. A oportunidade de mostrar sua visão empreendedora que unia potência pessoal e criatividade  voltada ao sucesso da empresa. 

        Assim que Denise acabou sua fala, Juliano levantou-se, passou a mão discretamente sobre o paletó para alisar qualquer amassado e colocou-se à cabeceira da mesa. Começou então a sentir um formigamento nos pés, que foi subindo quente por suas pernas, espalhando-se pelo resto do corpo, fazendo-o tremer e começar a suar. Sua mente esvaziou-se por completo e por um segundo não sabia onde estava. Todos olhavam para ele e Juliano simplesmente não sabia o que dizer, não lembrava de nada. Em desespero, procurou algo de familiar, um ponto de refúgio que pudesse lhe ajudar a lembrar-se, mas só conseguiu enxergar na parede, em cima da mesa, o relógio, cujos ponteiros chineses sussurraram em profecia. Meio-dia, o seu tempo é perdido. 

 

Mariana B. Cavariani

3 Comentários

  1. quando abre está em cirilico?

  2. Mariana Braga Cavariani fala: Responder

    Mudei a letra, pode ser que tenha dado algum erro. Obrigada.

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