A escuridão Entre o Cais e o Comboio

Segunda Crônica por Andressa Barichello

Aos domingos a quantidade de carruagens é reduzida. Carruagens são os vagões do metrô, quero dizer, do comboio. É tão estranho pensar por toda vida a carruagem solene, coche das princesas, e encontrá-la um dia transmutada em lata de sardinha on the subways. Ainda sonhando com contos de fada e na desilusão provocada pelo encontro com o real dos subterrâneos, não se pode esperar distraído na plataforma, quero dizer, no cais. Quando o som do túnel anuncia a aproximação, é preciso ter pressa para entrar antes da lotação ou do fechar de portas.

A mulher francesa, com suas duas crianças francesas, ainda não tem no corpo a dinâmica ensaiada exigida pelo vai e vem desses trens. Com três camadas de blusas e um casaco estufado, já aprendi a me deslocar pelas linhas como se as escadas rolantes da entrada da estação se prolongassem até a porta de cada vagão. Entro e saio de modo automático, conduzida pelo ritmo dos outros passageiros, como deslizante sobre uma esteira invisível capaz de garantir a ordem e o sucesso dos embarques e desembarques. Nem sempre foi assim. Tal como a mulher francesa, houve tempo em que meu maior receio era perder o trem. Esquecida de que novos trens para o mesmo destino sempre ressurgem ao final do túnel, demorei a abandonar a impressão de que se as portas se fechassem diante de mim já não haveria conexão possível e que, portanto, de perda tão banal sucederiam perdas maiores, perdas essas que nunca pude racionalmente entender quais seriam ou quais foram.

Talvez tenha sido assim, na tentativa de evitar perdas maiores, que a mulher francesa com suas duas crianças francesas tenha corrido para o trem após os três apitos de fechamento e que tenha, por isso, se lançado à massa estofada de casacos de napa, colchões infláveis de dentro dos quais saíram as mãos capazes de puxá-la pouco mais para dentro. A cena das mãos emergindo dos bolsos para resgatar a mulher e impedir um acidente foi semelhante ao clichê das mãos que nos filmes de ação se esticam à velocidade de abertura dos airbags para impedir alguém de rolar por um precipício. Assim como a ideia de carruagem já não pode ser a mesma, também a ideia de salvamentos e de airbags ganha outra imagem em meu repositório.

Mas dizer que foi possível impedir um acidente talvez seja mentira. Embora nada além do susto tenha acontecido ao corpo da mulher francesa com suas duas crianças francesas, alcançar o vagão custou uma perda. Escapou dos dedos do menino um boneco pequeno, de plástico rijo. Desses que, como estátuas, não possuem articulação. Balançam de lado a outro ao movimento das mãos, como dançassem todo tempo, ainda quando o que se pretende é que caminhem ou conversem. Talvez tenha sido por essa completa impossibilidade de fazer dobra, somada à textura escorregadia de certos plásticos, que aconteceu ao boneco despencar no precipício representado pelo intervalo entre o cais e o comboio. Primeiro voou ao alto, pelo impacto dos braços do menino contra a porta. Depois, sem tempo para um giro no ar, meteu-se lá para os trilhos.

Espremido por pernas estranhas, o menino escondia o rosto nas pernas da mãe. As lágrimas dele marcando o jeans dela que surfava agarrando-se com um dos braços na barra disputada por tantas mãos. Também terá sido bom, nessa hora, o excesso de mãos, a tornar precária a estabilidade do corpo da mulher francesa. Porque assim restou livre braço no qual agarrou-se a menina e mão para consolar o filho. O que falta é às vezes o que salva. Teria sido mais seguro sentar-se, teria sido mais seguro esperar pelo próximo trem. O julgamento é implícito e o perdão também. Porque na mistura de hálitos e suores, no calor das peles, entre os uivos do túnel e o choro fino do menino, a multidão em silêncio sabe, no íntimo, que equívocos seguido de perdas são a maior sina dos adultos. E que os adultos, como o menino, viajam estrangeiros, acostumando-se aos lutos; como as princesas que ao perder seus cavalheiros sacolejam para longe dentro de carruagens puxadas por cavalos ao arranque brusco de corpos sob a ponta de um chicote.

Andressa Barichello nasceu em São Paulo e reside em Curitiba. É mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa e co-fundadora do projeto de Coinspiração Cultural Fotoverbe-se.com no qual realiza vivências com artistas. É autora do livro “Crônicas do Cotidiano e outras mais” vencedor do prêmio Alejandro Cabassa pela União Brasileira dos Escritores do Rio de Janeiro, publicado em 2014 pela Scortecci Editora.

1 Comentário

  1. Lindo, Andressa 🙂

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