Era uma vez em Tóquio (Tōkyō Monogatari )

 

Yasujiro Ozu, considerado o mais japonês de todos os diretores, iniciou sua carreira no cinema mudo ainda na década de 20. Até sua morte, em 1963, realizou cerca de 50 filmes dos quais muitos figuram em listas das melhores obras lançadas até hoje.

É o caso de “Era uma vez em Tóquio”, de 1953, que já foi considerado o melhor filme de todos os tempos. A história começa na pequena cidade de Onimichi, onde um casal de idosos, Shukichi e Tomi, prepara uma viagem a Tóquio para visitar os filhos Koishi e Shige A partir do momento em que chegam,  uma das frases mais ouvidas diz respeito a quanto ambos estão ocupados demais e não dispõe de tempo para levar os idosos nem a um passeio pela cidade. Quem faz isso é Noriko, nora de Shukichi e Tomi, cujo marido morreu oito anos antes durante a segunda guerra. Apesar de também trabalhar, é ela quem não só os acompanha, como também preocupa-se com eles e mantêm o vínculo mais forte.

Ao iniciarem a viagem de volta, os idosos param ainda na cidade de Osaka para visitar outro filho mas neste caminho, Tomi sente-se mal e necessita passar outros dois dias na cidade. Quando finalmente retornam ao seu lar, a idosa fica gravemente doente e desta vez são os filhos que fazem o caminho contrário  para sua cidade natal. Seria fácil retratar este momento como uma redenção, mas o cinema do diretor nunca é óbvio, muito menos dramático.

O cinema de Ozu e neste filme em particular, fala estritamente do cotidiano. Uma pequena rixa entre os idosos pois não encontram um travesseiro para a viagem, os filhos de Koichi que não tendo convivido com os avós, veem-os como estranhos, as desculpas para não dar atenção aos pais, a paciente resignação destes com esta situação. Histórias tão comuns, mas que Ozu consegue retratar com tamanha maestria e delicadeza que reverberam em qualquer um que assista ao filme.

Na obra do diretor as relações familiares, a passagem do tempo e a velhice são temas recorrentes. Em uma das cenas mais tocantes, Tomi leva o neto mais novo para um passeio e enquanto a criança brinca sem entender o que a avó diz, ela pergunta a ele se irá ser médico como o pai, para em seguida questionar-se: onde estarei quando você for médico? Curioso lembrar que no túmulo de Ozu não há inscrições, apenas o ideograma que representa a palavra “nada”.

São muitos os motivos para se assistir a Ozu. Os aspectos técnicos – o uso da lente 50 mm, a mais parecida com a nossa visão, a câmera estática e posicionada frontalmente em todos os planos, a uma altura baixa como a de uma pessoa sentada no tatame, a obsessão pela simetria das linhas verticais e horizontais nos interiores, a negação do campo-contracampo, todos aspectos que juntos, produzem este belissimo filme. Difícil escolher apenas um.

 

Mariana B. Cavariani

 

 

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