Encurralado

O longa metragem de estreia de Steven Spielberg foi um filme feito direto para a TV e, assim, há que se levar em conta as ambições desta produção ao analisá-la. Para se ter ideia das limitações impostas ao jovem diretor (com vinte e cinco anos na época), toda a fotografia principal teve de ser feita em dez dias. Obviamente, estão praticamente ausentes efeitos especiais, tão usuais nos enlatados de hoje em dia. O enredo é igualmente simples: após ultrapassar um caminhão em uma pequena estrada na Califórnia, David passa a ser perseguido. O motorista, que permanece incógnito, torna-se cada vez mais agressivo. Resta a David apenas uma escolha: matar ou morrer.

Muitas vezes restrições técnicas ou orçamentárias são positivas, forçando o diretor a adotar soluções menos convencionais para a obra. Este é o caso de Encurralado, em que Spielberg demonstra um impressionante domínio das técnicas cinematográficas. O filme tem várias semelhanças com Tubarão, desde a trilha sonora até o enredo. Através da combinação de cortes bem feitos, closes e efeitos sonoros, o caminhão personifica-se em vilão. Há também uma discussão sutil em relação aos papeis sociais de gênero, que se estabelece a partir uma entrevista transmitida pelo rádio, em que um homem relata seus sentimentos em relação a ser “dono de casa.” Pouco tempo depois, David telefona para sua esposa e é recriminado por não ter confrontado um homem que a havia ofendido na noite anterior. Este elemento é importante para criar empatia em uma audiência predominantemente masculina. A necessidade de “provar que é macho” nunca é explicitamente colocada, mas é a motivação subjacente que permeia as ações do personagem (e que reflete-se muito bem no título original da obra, Duel). Num momento em que a discussão sobre este assunto tende a dar menos ênfase ao gênero masculino, pode ser interessante observar como os moldes sociais rígidos afetam também os homens de forma negativa.

Por Henrique Fanini Leite

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